O narcisismo constitui uma dimensão estruturante da personalidade, absolutamente necessária ao desenvolvimento humano saudável e equilibrado. Assim acontece porque ela assegura o sentimento de amor recebido que traz segurança e bem-estar psicológico. Esse amor recebido é em primeira instância fornecido por outra pessoa, o cuidador principal que habitualmente é a mãe pelo que ele está intrinsecamente ligado aos cuidados maternais primários.
Contudo, o narcisismo pode assumir uma expressão patológica que, fundamentalmente, se carateriza por pessoas com um funcionamento com duas principais caraterísticas: a) sentido grandioso do Eu, acompanhado de admiração por si mesmo, sentimento de ser especial e apenas ser compreendido por certas pessoas, normalmente com níveis intelectuais elevados, ter direitos superiores aos outros e de tratamento especial; b) baixa empatia e atitude de oportunismo no contexto das relações interpessoais, com exploração e aproveitamento dos outros de forma a garantir as suas necessidades e desejos.
O que gera a autoadmiração e a falta de empatia?
O desenvolvimento de um sentido desviado de narcisismo acontece pela incapacidade de processar um período decisivo do desenvolvimento que coincide com o final dos cuidados maternos primários e com o desafio de adquirir um sentido inicial de individualização. Nos primeiros meses de vida o bebé, imerso no contexto relacional com o seu cuidador, o qual lhe assegura todas as necessidades, percebe-se como ligado a esse cuidador, normalmente a mãe. Trata-se da primeira forma de relação no desenvolvimento humano que pode ser designada de relação fusional na medida em que os dois intervenientes têm uma ligação muito próxima e que o bebé depende integralmente da mãe para assegurar as suas necessidades.
Este par em relação fusional é o contexto ideal para o início do desenvolvimento humano. A mãe assegura todo o amor que o bebé necessita, ou seja, assegura a emergência do narcisismo do bebé que é responsável pelo seu sentido de segurança e bem-estar. Porém, de uma forma natural, a mãe vai deixar de se posicionar de forma tão exclusiva e permanente na relação com o bebé à medida que este vai adquirindo as primeiras capacidades de regular o funcionamento do seu corpo.
Esta mudança constitui a oportunidade para o bebé adquirir um sentido de segurança menos dependente do seu objeto de amor, a mãe.
O problema surge quando o bebé não consegue aproveitar a crise gerada pela mudança de atitude da mãe para adquirir um sentido superior de auto-regulação e deixa permanecer dentro de si um sentimento de ameaça pelo afastamento da mãe. Isso vai fazê-lo substituir a perceção do par fusional por uma outra perceção que é a do seu próprio self através da qual garante o amor que necessita. Esta perceção de amor sustentado no próprio self protege a desilusão da perda do objeto amado e conduz ao desenvolvimento de um sentido grandioso de self que funciona como um mecanismo protetor face à desilusão de não ser amado.
O desenvolvimento de um self grandioso explica as principais manifestações da perturbação narcísica. Por um lado, as pessoas com perturbação narcísica, tendem a enfatizar as suas necessidades pois sentem naturalmente a sua prioridade e importância. Ao fazê-lo asseguram a satisfação do seu narcisismo e do amor que precisam receber. A insegurança sobre virem a ser amados pelos outros leva-os a esta priorização assim como faz com que transformem os outros no meio que garante o seu objetivo. Deste modo, tendem a instrumentalizar as relações através da já referida atitude oportunista, incluindo mentira, manipulação e exploração, em que o outro é sobretudo um meio de fornecimento do amor que necessitam.
Dito da forma mais simples, se os narcisistas não se admirassem a si mesmos não sentiriam o amor suficiente para se sentirem seguros e equilibrados. O seu self grandioso assegura o narcisismo suficiente a esse equilíbrio. Naturalmente que, sendo o outro um meio de garantia das próprias necessidades, a empatia fica comprometida pela necessidade de concentração nas necessidades do self. Isso também explica a existência de manifestações de raiva intensa quando o outro resiste ao papel de mero fornecedor das necessidades do Eu grandioso e especial da personalidade narcísica.
Dr. Jorge Ferreira

