Desde a Antiguidade Clássica que as questões associadas à felicidade são motivo de reflexão para o ser humano. Na sua mais íntima essência, o Homem sempre procurou compreender a vida e encontrar um sentido para a sua existência.
Contudo, a vida nem sempre é um mar de rosas! Enfrentamos desafios como – a perda de um ente querido, um acidente que altera a vida ou uma doença grave – e ter de lidar com estes reveses, obstáculos de vida é, e será sempre, um enorme desafio. Faz parte da nossa existência: acredite que num determinado momento, a vida vai desafiá-lo. E quando chegar essa altura, certamente que vai achar que não merecia, que é injusto e todos esses sentimentos, acabam por o bloquear e estagnar ainda mais, e consequentemente trazerem desmotivação e não soluções. Mas a verdade, é que é muito mais fácil deixar-se abater do que ultrapassar os obstáculos e fazer com que seja um processo de crescimento individual.
Logo, um evento difícil não tem que ser necessariamente negativo e pode até incluir uma melhor perceção do eu.
Enfrentamos desafios e encontramos formas de os confrontar. De que forma? Podemos negar, fugir, enfrentar ou evoluir.
Enfrentar e evoluir, parece-me ser a atitude mais sensata e proactiva, pois a verdade é que também podemos encontrar sentido na vida, mesmo quando confrontados com uma situação desesperante, diante de um destino que não pode ser mudado. Pois o que importa é testemunhar o potencial exclusivamente humano no seu melhor, que é transformar uma tragédia pessoal num triunfo, transformar a situação numa realização humana.
Cada vez que surge uma adversidade, há uma oportunidade para evoluir, para nos tornarmos mais resilientes e maduros. Os problemas são um treino para a vida e a resiliência é uma competência comum, não extraordinária.
Vários pesquisadores acreditam que é através do processo de luta contra as adversidades que podem surgir mudanças que empurrem o indivíduo para um nível de funcionamento superior ao que existia antes do evento que mudou a sua vida.
Contudo, cada mudança afeta as pessoas de forma diferente, trazendo uma enxurrada única de pensamentos, emoções fortes e incertezas. Ainda assim, as pessoas geralmente se vão adaptando com o tempo à situação de mudança de vida – em parte graças à resiliência.
A resiliência não é necessariamente um traço de personalidade que apenas alguns possuem. Antes pelo contrário, esta envolve comportamentos, pensamentos e ações que qualquer pessoa pode aprender e desenvolver. A capacidade de aprendê-la é um dos motivos pelo qual as pesquisas mostram que a resiliência é comum, não extraordinária.
Para aumentar a sua capacidade de resiliência e superar as adversidades, foque-se em quatro componentes principais:
Força pessoal/intelectual – advém de mudanças ao nível do self e onde se incluem tentativas para se tornar mais forte psicologicamente, mais confiante, ou seja, um self genuíno, melhorado, mais aberto, mais empático, mais criativo, mais maduro, mais humanitário, mais especial e mais humilde. Contudo, e após suportar o trauma, sentindo com isso um incremento na sensação de força pessoal, percecionando uma maior capacidade de lidar com adversidades futuras, o indivíduo prioriza uma nova escala de importância às diferentes realidades que se apresentam à sua frente, bem como um maior valor da Vida, desenvolvendo ao mesmo tempo um aumento do sentimento de gratidão. Como não possui qualquer controle sobre certos eventos, ele pode sentir- se mais vulnerável, e como resultado, prestar atenção a pequenos acontecimentos ou coisas anteriormente catalogadas como insignificantes.
Por isso, tente ter pensamentos saudáveis, mantendo as situações em perspetiva. O modo como pensa tem impacto em como se sente, e qual a sua resistência perante novos obstáculos e desafios. Tente identificar regiões de pensamento irracional, como a vertigem para a catástrofe, o sentimento que tudo e todos estão a conspirar contra si. Adote uma postura ao nível do pensamento mais equilibrada e realista.
Prioridades alteradas – as prioridades na vida mudam como reação à reconstrução cognitiva experimentando um incremento no valor dado à vida. Algumas situações ou traumas que colocam a vida dum individuo em perigo podem levar ao sentimento de poupança e que a oferta de uma segunda oportunidade deve ser vista com cuidado. Indivíduos que optam pelo crescimento após a experiência traumática constatam uma redefinição nas suas prioridades, como por exemplo: como e com quem decidem passar o dia, a sua aparência, bens monetários e a sua saúde. Eles possuem um novo conceito da vida, aprendendo, assim, novas aptidões. Promovendo, assim o bem-estar com a prática de uma alimentação equilibrada, sono amplo, meditação, ioga, hidratação e exercícios regulares, podem ajudar a pessoa a fortalecer o seu corpo, a construir conexões e a restaurar a esperança para se adaptar a eventos desafiadores que exigem resiliência e reduzir o impacto das emoções.
Privilegie determinados relacionamentos – Conecte-se e concentre-se em conviver com pessoas empáticas, confiáveis e compreensivas que validem os seus sentimentos e que o lembrem que não está sozinho a enfrentar os obstáculos. Bem sei que a dor provocada por eventos traumáticos pode conduzi-lo a um isolamento, mas acredite, é importante aceitar a ajuda e o apoio daqueles que se preocupam verdadeiramente consigo. Junte-se a um grupo, quer seja de reabilitação, ou de exercicio físico ou comunidades religiosas ou outras organizações locais que forneçam apoio social com o intuito de o ajudar no seu processo de recuperação.
Desenvolvimento Espiritual – A crença numa religião pode tornar-se mais premente após a vivência de uma adversidade, contribuindo assim, para atribuir um significado e um propósito de vida perante esse momento. As pessoas que não acreditam na religião podem experimentar algum crescimento na esfera espiritual. A experiência com o crescimento espiritual não é consistente e varia entre as pessoas que vivenciam a situação marcante de vida e depende da relação anterior com a sua religiosidade e espiritualidade, bem como da atribuição causal ao evento. Assim, o indivíduo cria uma nova filosofia de vida que muda as suposições e crenças do passado, levando a novos potenciais e oportunidades que não existiam antes do evento.
Aceite que a mudança faz parte da vida. Certos objetivos ou ideais podem não ser mais alcançáveis como resultado de situações adversas na sua vida.
Aceitar as circunstâncias que não podem ser alteradas pode ajudá-lo a concentrar-se nas circunstâncias que pode alterar.
Mantenha uma perspetiva positiva. É difícil ser positivo quando a vida não está a correr como planeamos, mas uma perspetiva otimista permite que você espere que coisas boas lhe aconteçam. Tente visualizar o que você quer, em vez de se preocupar com o que teme. Ao longo do caminho, observe todas as formas subtilmente apresentadas e repare como lida melhor às situações adversas. Claro que é útil reconhecer e aceitar as suas emoções durante os tempos difíceis, mas também é importante ajudá-lo a promover a autodescoberta perguntando-se: “O que posso fazer relativamente a este desafio na minha vida?” – Ao fazer isso, está a tomar as rédeas da sua vida.
Bem sei que não é um processo simples. Para muitas pessoas, usar os seus próprios recursos e os tipos de estratégias elencadas acima podem ser suficientes para realizar este processo de evolução. Mas, lembro-lhe que você não está sozinho nesta caminhada, um profissional de saúde mental licenciado, como um psicólogo, pode ajudá-lo a desenvolver uma estratégia apropriada para seguir em frente. É importante obter ajuda profissional.
Anabela Ferreira

