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O Homem que Ficou para Depois numa Vida que Ficou por Dentro

Junho é o mês da consciencialização para a saúde mental masculina. Habitualmente, este momento leva-nos a falar sobre prevenção, rastreios, alimentação, exercício físico, sono ou doenças que continuam a afetar milhões de homens em todo o mundo. Tudo isso é indispensável.

Mas existe uma dimensão da saúde masculina que continua a ser menos visível e, precisamente por isso, menos cuidada: a forma como um homem se relaciona consigo próprio.

A saúde não começa apenas no corpo. Começa também na forma como pensamos, sentimos, interpretamos a nossa experiência e construímos a nossa identidade. O cérebro humano foi desenhado para sobreviver. Cuidar da saúde é ajudá-lo a fazer mais do que isso: viver.

O nosso cérebro continua a funcionar com mecanismos desenvolvidos ao longo de milhares de anos para aumentar as probabilidades de sobrevivência. Está mais preparado para detetar ameaças do que para apreciar momentos de tranquilidade, mais predisposto a antecipar perigos do que a reconhecer segurança. Por isso, a ansiedade, o medo ou a necessidade de controlo não são sinais de fraqueza, mas expressões naturais de um sistema que evoluiu para nos proteger.

O verdadeiro desafio da saúde psicológica não é eliminar estes mecanismos. É aprender a reconhecê-los, compreendê-los e colocá-los ao serviço da vida, em vez de vivermos permanentemente ao serviço deles.

Vivemos numa época em que se fala muito sobre masculinidade. Questionam-se os papéis tradicionais, discutem-se novos modelos de identidade e procura-se redefinir aquilo que significa ser homem. É uma conversa necessária. No entanto, torna-se insuficiente quando reduzimos esta reflexão a uma oposição entre o passado e o presente, como se bastasse escolher entre aquilo que fomos e aquilo que hoje podemos ser.

O ser humano nunca é apenas o resultado do tempo em que vive. É também o resultado daquilo que lhe aconteceu, daquilo que lhe ensinaram, daquilo que lhe permitiram sentir e, tantas vezes, daquilo que lhe disseram que nunca deveria mostrar.

Somos feitos de crenças, relações, experiências e condicionamentos que nunca escolhemos totalmente, mas que moldaram a forma como pensamos, sentimos e existimos. Costumo dizer que a experiência da vida é, muitas vezes, o somatório dos nossos erros. Não porque os erros nos definam, mas porque a forma como lhes damos significado acaba, frequentemente, por definir quem nos tornamos. Aquilo que verdadeiramente nos transforma raramente nasce dos momentos em que tudo corre exatamente como esperávamos.

A maior conquista da nossa época não é apenas a liberdade para sermos quem quisermos. É a possibilidade de escolhermos conscientemente quem queremos continuar a ser. Não escolhemos aquilo que nos ensinou a ser. Mas podemos escolher aquilo que fazemos com essa aprendizagem. 

Durante muito tempo, sobreviver exigiu disciplina, resistência, trabalho e capacidade para suportar adversidades constantes. Cada geração educou a seguinte com o conhecimento e os recursos que possuía. Não se trata de julgar o passado. O problema surge quando continuamos a utilizar respostas antigas para perguntas que pertencem ao presente.

Foi neste contexto que muitos homens cresceram a ouvir mensagens semelhantes: um homem aguenta, um homem resolve, um homem trabalha, um homem protege. Estas ideias continham valores importantes como a responsabilidade, o compromisso e a coragem. O problema nunca esteve nesses valores. Surgiu quando passaram a ocupar praticamente todo o espaço disponível para definir aquilo que significava ser homem.

Muitos homens aprenderam a suportar antes de aprenderem a cuidar. Aprenderam a trabalhar, mas não necessariamente a descansar. Aprenderam a cuidar dos outros, mas não necessariamente a cuidar-se.

Vivemos também numa sociedade que transformou o desempenho numa medida silenciosa de valor pessoal. Nunca tivemos tantas oportunidades para crescer e, paradoxalmente, nunca nos sentimos tão pressionados para corresponder. Muitas vezes nem percebemos que estamos a cumprir expectativas que nunca escolhemos. Muitos homens continuam a medir o próprio valor pela capacidade de produzir, resolver e alcançar. O problema é que aquilo que nos torna úteis nem sempre coincide com aquilo que nos torna saudáveis.

É por isso que alguns homens chegam a determinada fase da vida com a sensação de terem cumprido tudo aquilo que era esperado deles e, ainda assim, sentem que existe qualquer coisa por resolver. Não necessariamente à sua volta. Dentro deles.

Finalmente, o silêncio chega. O trabalho termina, as notificações abrandam e, pela primeira vez em muito tempo, deixa de existir alguém a pedir alguma coisa. É precisamente nesse espaço, raro e quase desconhecido para muitos homens, que surge uma pergunta adiada durante anos: Quem sou eu quando deixo de corresponder?

À primeira vista parece uma pergunta simples. No entanto, para muitos homens, pode ser uma das mais difíceis de responder. Não porque lhes falte inteligência, competência ou força. Pelo contrário. Muitos passaram grande parte da vida a desenvolver competências para responder ao mundo exterior e relativamente pouco tempo a desenvolver consciência para compreender aquilo que acontece dentro deles.

A psicologia tem demonstrado de forma consistente que a capacidade para identificar e compreender emoções influencia diretamente a saúde mental, a qualidade das relações, a tomada de decisão e até indicadores fisiológicos relacionados com o stress crónico. Quando conseguimos reconhecer aquilo que sentimos, tornamo-nos mais capazes de responder de forma adaptativa. Quando não conseguimos, a emoção não desaparece. Continua presente.

Existe um conceito que ajuda a compreender este fenómeno: alexitimia. De um modo simples, refere-se à dificuldade em identificar, compreender e expressar emoções. Não significa ausência de sentimentos; significa ausência de linguagem para lhes dar significado. É por isso que alguns homens conseguem falar durante horas sobre trabalho, dinheiro ou responsabilidades e, ao mesmo tempo, sentem enorme dificuldade em responder à pergunta mais simples de todas: “Como tens estado?”. Não porque não sintam. Toda a gente sente. Mas porque passaram demasiado tempo sem aprender a reconhecer aquilo que sentem.

A ansiedade passa frequentemente a chamar-se stress. A tristeza transforma-se em cansaço. O medo surge disfarçado de necessidade de controlo. A vulnerabilidade esconde-se atrás do desempenho, da irritação, do humor ou do silêncio.

Ao longo dos anos fui percebendo que raramente um homem chega à consulta por dizer que não sabe quem é. Chega porque anda cansado, irritado, sem paciência ou porque deixou de encontrar prazer naquilo que antes lhe fazia sentido. Muitas vezes, por trás destas queixas, existe uma pergunta muito maior que ainda não encontrou linguagem.

Há homens que passam a vida rodeados de pessoas e, ainda assim, carregam uma estranha sensação de distância. Não uma distância física, mas uma distância entre aquilo que fazem e aquilo que sentem, entre aquilo que mostram e aquilo que realmente são. Porque nem todo o cansaço nasce do esforço. Algum nasce da distância entre a vida que construímos e a vida que compreendemos. É aqui que a conversa deixa de ser apenas sobre emoções. Passa a ser sobre identidade.

Perdemo-nos, quase sempre, devagar. Nas emoções que deixamos para depois. Nas perguntas que evitamos fazer. Nas rotinas que repetimos sem questionar. Até que um dia percebemos que sabemos muito sobre aquilo que fazemos e muito pouco sobre aquilo que somos.

Muitos homens passaram a vida a aprender aquilo que se esperava deles antes de descobrirem quem realmente eram. Tornaram-se extremamente competentes a corresponder. Mas corresponder não é o mesmo que conhecer-se.

Se retirasse hoje a sua profissão, os papéis que desempenha na família, as responsabilidades do dia a dia e tudo aquilo que faz, quanto da sua identidade permaneceria? A pergunta não pretende diminuir aquilo que faz. Pretende apenas recordar-lhe que aquilo que faz nunca poderá substituir completamente aquilo que é.

Há homens que sabem exatamente aquilo que a família espera. Sabem aquilo que o trabalho exige. Sabem aquilo que os outros precisam. Mas quando ficam sozinhos descobrem uma pergunta desconfortável… “E eu?”.

Uma parte importante do sofrimento psicológico moderno nasce precisamente da distância entre quem somos e quem acreditamos ter de ser. A consciência não muda aquilo que vivemos. Muda profundamente a forma como aquilo que vivemos continua a viver dentro de nós. É ela que nos permite deixar de reagir automaticamente àquilo que aprendemos e começar, finalmente, a escolher quem queremos continuar a ser.

É por isso que crescer implica, muitas vezes, um luto silencioso.

Quando pensamos em luto, pensamos quase sempre na perda de alguém. Raramente pensamos na necessidade de nos despedirmos de versões antigas de nós próprios. Crescer implica exatamente isso: reconhecer que algumas formas de estar foram essenciais para sobreviver, mas deixaram de servir para viver.

Ligamo-nos ao homem que acreditava que tinha de aguentar tudo sozinho. Ao homem que confundia desempenho com valor pessoal. Ao homem que procurava aprovação através da utilidade. Ao homem que aprendeu a sobreviver antes de aprender a existir. E essas versões não merecem ser condenadas. Merecem, sim, ser compreendidas.

Muito provavelmente fizeram exatamente aquilo que era necessário no contexto em que nasceram. Aquilo que nos protegeu numa fase da vida pode não ser aquilo que nos permite crescer na seguinte. Necessário não significa permanente. Crescer não é apenas acrescentar competências. É também deixar partir identidades que já não nos permitem continuar a crescer.

Durante muito tempo acreditou-se que as emoções eram um obstáculo à razão. Hoje sabemos que representam precisamente o contrário. Funcionam como um sistema de informação sobre aquilo que precisamos, valorizamos ou sentimos ameaçado. Ignorá-las não elimina essa informação. Apenas nos afasta da possibilidade de a compreender.

O silêncio protege durante algum tempo, mas aquilo que nos protegeu pode, mais tarde, impedir-nos de viver.

Vivemos numa época em que nunca existiu tanta liberdade para construir identidade. Mas liberdade não significa ausência de limites. Significa responsabilidade suficiente para escolher conscientemente aquilo que dá direção à nossa vida.

Existe uma diferença entre viver sem correntes e viver sem direção. A visão dá direção. A direção dá significado. E o significado transforma esforço em crescimento. E o problema raramente é apenas a dor. É a dor sem propósito. O esforço sem significado. É continuar a caminhar sem perceber para quê.

Existe ainda uma contradição silenciosa.

Muitos homens aprendem a cuidar da família, dos filhos, dos pais, dos amigos e do trabalho. Mas passam tantos anos a responder às necessidades dos outros que deixam, lentamente, de perceber quais são as suas.

A relação que temos connosco próprios influencia a forma como trabalhamos, amamos, decidimos e cuidamos da nossa saúde. E talvez o maior erro da educação de muitas gerações não tenha sido ensinar os homens a serem fortes, mas sim ensinar que força significava deixar de sentir.

Os valores, a disciplina e o sentido de responsabilidade continuam a ser fundamentais. O problema surge quando educamos apenas para cumprir, produzir e corresponder. Corremos então o risco de formar pessoas extraordinariamente competentes para funcionar e profundamente afastadas de si próprias.

Uma máquina executa. Uma pessoa sente.

Talvez uma das maiores tragédias da vida humana aconteça quando nos tornamos tão eficientes a cumprir expectativas que deixamos de reconhecer quem somos para além delas.

O maior desafio da saúde masculina talvez já não seja ensinar os homens a suportar a vida. É ajudá-los a habitá-la. Porque ninguém nasce condenado à forma como aprendeu a sobreviver. O cérebro aprende. A identidade transforma-se. A consciência desenvolve-se. E aquilo que durante anos parecia impossível de sentir pode, finalmente, encontrar linguagem.

Existe uma verdade simples que, por vezes, esquecemos. Nós somos a pessoa através da qual vivemos toda a nossa vida. Todas as escolhas. Todas as relações. Todas as conquistas. Todas as perdas. Tudo passa, inevitavelmente, pela relação que construímos connosco.

E, de facto, não sou a pessoa mais importante do mundo. Mas sou, inevitavelmente, a pessoa mais importante da minha vida.

É através da relação que tenho comigo que todas as outras relações se constroem. Cuidar da saúde nunca foi apenas prevenir doença. Foi sempre aprender a viver de forma suficientemente consciente para deixar de sobreviver em piloto automático.

A consciência não serve para nos tornar pessoas diferentes. Serve para nos permitir ser, pela primeira vez, quem realmente somos. Porque o cérebro foi desenhado para sobreviver, mas…

Viver… essa continua a ser uma escolha consciente.

E talvez essa seja a decisão mais corajosa que alguma vez teremos de tomar. 

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