Perceber a diferença entre ser forte e ser corajoso, pode ser um bom começo para iniciarmos esta pertinente reflexão sobre o poder da vulnerabilidade.
Forte, é aquele que se manifesta com força, tolera descomedidamente grandes desafios, supera situações difíceis de forma incansável. Corajoso, é quem perante as adversidades inerentes a vida, é capaz de pedir ajuda. E quando o fardo é pesado demais, consegue dizer: basta! eu não tolero mais! Isto está a ser demais para mim!
Na verdade, quem tem coragem, não tem medo de mostrar sua vulnerabilidade. Pois, viver é experimentar incertezas, perdas, riscos e se expor emocionalmente, e isso não precisa ser experienciado como algo, que é desagradável.
Se forte também pode ser visto como uma “boa e válida” estratégia de sobrevivência. Muitas vezes somos enaltecidos, pela nossa capacidade de força, de trabalho, de aguentar muitas horas, dias, anos de vida em esforço constante.
Contudo, o resultado deste comportamento, torna-se danoso para nossa saúde física e mental. Ao longo da vida, vamos criando camadas e camadas, que são estratégias de sobrevivência. Com o tempo, tais estratégias, se manifestam como sintomas, problemas ou dificuldades, que nos afastam da nossa real identidade.
De um certo modo, elas asseguraram a nossa sobrevivência durante e depois de uma situação dolorosa. Mas isso tem um custo, pois elas normalizam o sofrimento; procuram formas de compensação; garantem a divisão da identidade; criam distrações, ilusões e inventam realidades que não existem. De forma silenciosa, vão nos involucrando dentro de uma falsa armadura.
“Um homem vai ao alfaiate, para experimentar seu fato. Parado diante do espelho, ele percebe que o fato está um pouco irregular na parte inferior.
— Ora — diz o alfaiate. — Não se preocupe com isso. Basta você puxar a ponta mais curta para baixo com a mão esquerda, que ninguém vai perceber nada. Enquanto o cliente faz exatamente o que é lhe sugerido, ele nota que o colarinho está com uma ponta enrolada.
— Isso não é nada, é só você virar a cabeça um pouquinho e segurar o colarinho no lugar com o queixo.
O freguês obedece e, quando o faz, observa que a costura de entrepernas está meio curta e que o gancho lhe parece apertado demais.
— Ora, nem pense nisso. Puxe o gancho para baixo com a mão direita, e tudo vai ficar perfeito. — O freguês concorda com todos absurdos sem pestanejar e compra o fato.
No dia seguinte, o homem exibe o seu fato novo pelo passeio, com todas as alterações de queixo e mãos. Enquanto ia coxeando pela rua abaixo, com o queixo segurando o colarinho no lugar, uma das mãos puxando a parte da frente do fato, e a outra mão agarrada ao gancho. Dois velhos que por ali, jogavam damas, param o jogo para vê-lo passar com dificuldade.
— Meu Deus! — disse o primeiro velho. — Veja aquele pobre aleijado.
O segundo homem refletiu por um instante antes de sussurrar.
— É, ele é bem aleijado mesmo, mas o que eu gostava de saber… onde será que ele comprou um fato tão elegante?”
E assim, como neste conto, muitas vezes, seguimos uma vida de esforço, suportando grandes desconfortos, num trabalho que já se transformou num fardo, numa relação que já perdeu o sentido, enfim, numa vida formatada em contornos que não são nossas formas, e quiçá nunca foram. Uma vida que não nos faz felizes, desviando-nos do nosso propósito, só estamos ali, existindo dentro de um fato que não nos cabe mais. Muitas vezes, aplaudidos pela doentia resignação, seguimos espartanamente, como verdadeiros soldados que não vergam, até que o corpo e psique adoeçam.
Contudo, se nos propomos tirar a armadura, começa o desarmamento, e abrimos espaço para a autenticidade e a verdadeira conexão. Descobrimos que vulnerabilidade não significa fraqueza, e sim coragem de abraçar e expor o nosso verdadeiro eu, no seu formato real e não dentro de armaduras impostas pela cultura ou educação que recebemos. Quanto mais se demonstra o que sente, mais autêntico se é, maior é a maturidade emocional, pois pertencer a si mesmo é sempre mais importante do que tentar se encaixar.
Ser vulnerável não significa apenas estar disposto a estabelecer limites, compartilhar seus maiores medos, inseguranças e desconfortos. Ser vulnerável, pode levá-lo, a uma posição onde talvez seja rejeitado. Tal como, declarar de forma segura e aberta, uma opinião que não esteja de acordo com os outros. Ou então, revelar a uma pessoa, pela qual se sente atraído, que gostava de a conhecer e convidá-la para sair ou jantar. Todos estes comportamentos requerem que você se arrisque emocionalmente e esteja preparado para receber um não. Pois vulnerabilidade é expressar quem realmente você é, e tal exposição, representa uma forma de poder.
Vulnerabilidade também se aprende, é algo que você vai construindo pouco a pouco, se expondo constantemente a situações aparentemente desconfortáveis. Com o tempo você vai percebendo que as rejeições, não alteram o seu valor como ser humano, e que opinião dos outros não afetam, quem você realmente é.
Ser capaz de se expor e ser rejeitado sem se importar com o resultado negativo, isso sim é vulnerabilidade e autenticidade. E esta autenticidade levará os outros confiarem em você, permitindo criar relacionamentos verdadeiros e duradouros, aumentando a probabilidade de ter conexões mais verdadeiras e mais sinceras.
Quanto mais aberto e verdadeiro você se mostra, maior é a probabilidade de ter pessoas que realmente gostem de você. Caso contrário, ao se escudar, escondendo quem realmente é, os outros ficarão equivocados, com uma falsa impressão sobre você. Mas se você se abrir genuinamente, quem gosta do que você está mostrando vai querer ficar perto, e quem não gostar, irá se afastar. E está tudo bem o afastamento acontecer, às vezes, pode surgir uma grande amizade e outras vezes não, mesmo que as duas partes estejam sendo autênticas e vulneráveis. A vulnerabilidade só afasta quem não é para ficar. Encare isso com leveza, pois, não conseguimos conectar com todos.
Vulnerabilidade também traz paz interior, e tira você do módus operandi de viver com tanto julgamento. Pessoas mais abertas, espontâneas, felizes, são pessoas que estão de bem com a vida, falam o que sentem, não se importam com o que os outros pensam sobre ela. Encaram os sofrimentos da vida, sem que eles se tornem o fim do mundo.
Outro dia eu conversava com o filhinho da minha vizinha, um adorável e vivaz menino de 5anos. Ele me contava o seguinte: “Este aqui, é um raspão que fiz ao jogar a bola. Esta, é uma bolha que fiz com a sandália nova. Esta nódoa, foi uma pedrinha da praia que magoou-me enquanto eu corria descalço. Este risco, é um arranhão do Buby, meu gatinho…”
E eu só ouvia, atentamente, sem julgar. Naquele momento ele mostrava suas dores, e seu eu fizesse qualquer crítica, corria o risco, dele fechar o movimento. E assim, num próximo encontro, talvez ele escolhesse não compartilhar.
Penso que no espaço terapêutico acontece algo similar: o paciente aos poucos revela suas dores, feridas e conflitos. Tem alguns, que conseguem falar da dor logo na primeira sessão, outros demoram um tempo pra confiar e se abrir.
Tanto esta criança de 5 anos como as pessoas que procuram ajuda em contexto terapêutico, precisam se sentir seguras, para revelar sua vulnerabilidade, e assim serem acolhidas, aceites e reconhecidas em seu sofrimento. Para então caminhar em direção da cura. A terapia pode ser uma ferramenta muito interessante para quem quer fazer um mergulho dentro da própria vulnerabilidade, para compreender como aceitá-la e trabalhá-la.
Agora que você já sabe o valor de ser vulnerável, não se esqueça de ser mais corajoso e aventurar-se no seu cotidiano. É um posicionamento desconfortável, mas pode ser uma preliminar que permitem momentos de aprendizados valiosos, e que vão mudar o seu mindset, conduzindo-o mais próximo da sua essência.
Caso você sinta que é difícil fazer isto sozinho, não hesite em buscar ajuda especializada. Nós terapeutas podemos ajudar, estamos treinados para estabelecer uma escuta empática, acolhedora. Não hesite e agende logo a sua sessão para subir este degrau na sua evolução.
Dra. Sandra Santin