E se a abundância for mais do que um privilégio ou que um luxo? E puder, em vez disso, representar uma escolha consciente, ainda que desafiante? Não no sentido superficial da positividade a qualquer custo, mas como um posicionamento psicológico e existencial diante de um mundo que tantas vezes nos ensinou a viver com medo, culpa e com a sensação constante de que algo falta — ou faltará.
A verdade é que muitos de nós carregamos formas de escassez que raramente questionamos. Vemo-nos a repetir padrões, a evitar riscos, a desconfiar da vida. E talvez esses padrões nem sejam propriamente nossos.
A psicologia tem vindo a estudar de que forma o trauma vivido pode impactar as gerações seguintes. Reconhece-se hoje que estas experiências se prolongam muito além do tempo em que ocorreram. Elas infiltram-se subtilmente nas nossas vidas, nos silêncios, nos medos, nas ausências e nas repetições, de geração em geração.
Falamos de escassez intergeracional, um conjunto de crenças, comportamentos e emoções enraizadas em experiências de falta, provocadas por guerras, ditaduras, crises económicas ou pandemias, que, mesmo quando já foram superadas numa realidade externa, persistem internamente por gerações.
Vivemos hoje num mundo marcado por guerras, crise climática, polarizações políticas, colapsos económicos e resquícios de uma pandemia global. Esses padrões ganham uma nova expressão – a escassez deixa de ser apenas uma herança, passando a ser também uma resposta à instabilidade que se renova.
A população tem reagido a estes fatores com medos; dificuldade em desfrutar do prazer; sentem culpa em momentos de descanso ou em relaxar; incapacidade em planear o futuro devido à forte desesperança causada pela incerteza, o que tem gerado uma onda de insatisfação com a vida e com o mundo no geral. A Organização Mundial da Saúde assinala, aliás, uma tendência persistente de agravamento na prevalência de perturbações mentais, como a depressão e a ansiedade, especialmente entre os jovens.
Quanto mais normalizamos a lógica da escassez, mais alimentamos sistemas baseados no medo, desconfiança e retração emocional, que embora possa ser herdada e reforçada pelas nossas experiências de vida, esta lógica não tem de ser permanente. Quebrar o ciclo, não significa negar o passado, o presente ou romantizar experiências negativas, trata-se de desenvolver uma atitude mental flexível, progressiva e orientada para a abundância.
Ao nível individual, significa reconhecer o trauma, nomear o medo e abrir espaço para uma narrativa alternativa que restitua a sensação de segurança, de conexão e de possibilidade.
Na esfera coletiva – escolas, famílias, empresas- implica reconstruir uma ideia de futuro onde a cooperação substitua a competição e onde o cuidado e a partilha sejam vistos como forças estruturantes. Os grupos podem ser agentes de evolução e cura quando promovem ambientes onde não é preciso lutar por tudo, onde há espaço para pedir, confiar, partilhar e ajudar.
Não se trata de para negar o caos, mas de lhe responder com criatividade. É um gesto radical de confiança de que é possível agir, mesmo face à incerteza, e de que ainda há margem para imaginar, colaborar e transformar.
Enquanto a escassez espera que o mundo melhore para então relaxar, a abundância sabe que é preciso reconstruir e reeducar o mundo agora. A escassez paralisa. A abundância mobiliza. Não podemos mudar o que já está feito, mas podemos interromper a sua repetição e isso, por si só, já é um ato de abundância.
Num mundo em crise, a mentalidade de abundância não é uma forma de negação à realidade: é resistir-lhe criativamente. É a recusa em acreditar que tudo o que nos espera, é o pior. É afirmar que, mesmo quando tudo nos diz “protege-te, desconfia, guarda o pouco que tens”, há coragem em responder: “partilha, confia, constrói com os outros”.
Significa encorajar decisões guiadas por propósito, e não apenas por medo. Significa investir — emocional e materialmente — no que ainda pode florescer.
Esta transição é, na verdade, uma prática diária, individual, familiar, institucional e social. Algumas formas de potenciar esta atitude mental são:
–Reescrever narrativas familiares: Trazer à luz histórias de escassez com escuta e acolhimento, sem perpetuar o medo. Permitir dizer: “aquilo foi necessário naquela época, mas hoje podemos escolher e fazer diferente”.
–Nomear e questionar pensamentos de escassez: Identificar pensamentos limitantes e reformulá-los com uma perspetiva mais realista. Tente perceber que pensamentos são herdados (“na minha família, nunca se gastava dinheiro com …”, “não devo abrir o meu próprio negócio porque é muito arriscado”) e avaliar se ainda fazem sentido para sua realidade atual.
–Compartilhar, mesmo que pouco: A escassez ensina a guardar. A abundância manifesta-se na partilha. Doe algo (tempo, atenção, ajuda, palavras) sem esperar retorno. Ofereça palavras de incentivo ou reconhecimento a alguém — validar o outro também é viver a abundância emocional. Pequenos gestos têm grande impacto.
–Desacelerar e saber parar: A escassez diz “nada é suficiente”. A abundância sabe reconhecer o “já é o bastante por hoje”. Faça pausas conscientes ao longo do dia e observe em que momentos consome em excesso (informações, comida, tarefas) como resposta ao medo da falta.
–Celebrar pequenas conquistas: A escassez desvaloriza o progresso. A abundância reconhece e honra o caminho. Ao terminar uma tarefa, pare para reconhecer seu esforço. Marque simbolicamente vitórias, mesmo que pequenas: acenda uma vela, utilize um autodiálogo de celebração, ou faça algo prazeroso como recompensa.
–Ativar o prazer e a criatividade: Criar é um ato de confiança no presente — e na possibilidade de algo novo surgir. Reserve tempo para algo que não seja produtivo, mas prazeroso (dançar, desenhar, passear, cozinhar, caminhar sem rumo) e faça algo novo só por curiosidade — sem a obrigação de ter de ficar bom ou bonito.
–Redefinir o sucesso e valor pessoal: Desassociar o valor pessoal da produtividade constante. Fomentar uma mentalidade que associa o valor pessoal e o sucesso àquilo que somos enquanto seres na nossa totalidade, e que isso implica sermos não-lineares e que tenhamos direito ao erro, ao descanso, ao prazer, à criatividade e à alegria.
–Promover a segurança emocional: Incentivar os outros (e a si próprio) a confiar. Em em si e no mundo. Focar no “há espaço para errar e crescer”, ao invés de “faz tudo certo, senão perdes tudo”.
A mentalidade de abundância não se instala de um dia para o outro. Ela precisa de ser cultivada, especialmente em terrenos áridos por anos de escassez. Não se trata de negar a dor do passado, mas de decidir que essa dor não precisa de orientar o nosso futuro.
É um trabalho interno, mas também coletivo- escolher viver em relação, cuidar do outro, gerar movimento em vez de retração. Construir pontes, mesmo quando o nosso passado nos ensinou a erguer muros. Porque, no fim, o que transmitimos às próximas gerações não é apenas o que ensinamos com palavras — mas a forma como ocupamos o mundo.
Se reconhece em si sinais de escassez, não os ignore. São pistas, não sentenças. Olhe para as suas raízes com curiosidade, não com culpa. Procure apoio — na terapia, nos vínculos, na escuta ativa da sua própria história. Pode ser o ponto de viragem na sua linhagem. Cultivar uma mentalidade de abundância não é viver na ilusão de que tudo está bem — é sobre deixar de viver como se tudo fosse faltar.
E isso começa com um passo: o de permitir-se viver com mais leveza do que os seus antepassados puderam. Porque quebrar ciclos é também um ato de amor. Consigo e com os outros.
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