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O LADO B DA MATERNIDADE

Há um lado da maternidade que não cabe nas fotografias. Não se vê nos sorrisos captados nem nos momentos celebrados. É um espaço mais discreto, por vezes solitário, onde muitas mães se descobrem sem perceber bem como ali chegaram, e por vezes, sem saber exatamente como voltar a um outro lado da sua vida.

Ser mãe não é apenas acrescentar um papel à identidade. É, na verdade, uma transformação profunda e até uma pequena perda. Aquela mulher que existia antes não desaparece, mas também já não é exatamente a mesma. Entre fraldas e biberões, rotinas e necessidades constantes, surge uma pergunta que raramente é dita em voz alta:

Onde fiquei eu no meio disto tudo?

Análise psicológica à maternidade

Do ponto de vista de uma psicologia mais profunda, este movimento não é estranho. Tornar-se mãe implica reorganizar o mundo interno, revisitar relações antigas, sobretudo com a própria mãe, e lidar com desejos e expectativas, sejam elas conscientes ou inconscientes, que nem sempre são fáceis de integrar.

E depois há a culpa. A culpa materna é quase inevitável, mas raramente compreendida. Culpa por não estar sempre disponível, por se irritar, por precisar de espaço, por trabalhar demasiado ou por não trabalhar o suficiente. É uma culpa que nasce de um ideal impossível, o ideal de uma mãe sempre paciente, sempre presente, sempre feliz. Um ideal que não pertence à realidade, mas que se instala profundamente no psiquismo.

Na verdade, a culpa pode ser entendida como um sinal de vínculo, só se sente culpa quando se importa. Mas quando se torna constante, deixa de ser um guia e passa a ser um peso. 

Cansaço Emocional

A exaustão também não é apenas física. Há um cansaço emocional, mais difícil de nomear. Um desgaste que vem de estar sempre “ligada”, sempre atenta, sempre responsável. É aqui que, por vezes, se instala o que poderíamos apelidar de algo parecido com um burnout parental, não como falha, mas como consequência de uma exigência contínua sem espaço suficiente para recuperação.

Curiosamente, muitas mães só reconhecem este estado quando já estão muito além do limite. Antes disso, vão-se adaptando, resistindo, dizendo a si próprias que “é normal”, que “faz parte”.

E como se tudo isto não bastasse, há o olhar dos outros. A comparação social, amplificada pelas redes sociais e pelas narrativas idealizadas, cria a sensação de que há sempre alguém a fazer melhor, a ser mais paciente, mais presente, mais organizada. Mas aquilo que se vê é apenas uma parte, muitas vezes cuidadosamente escolhida, da realidade. Comparar-se, neste contexto, torna-se uma armadilha imensa porque em vez de aproximar, afasta a mãe da sua própria experiência, daquilo que é único na sua relação com o filho. Da sua subjectividade e intersubjetividade consigo e com o seu filho.

Mãe perfeita, procura-se!?

Talvez uma das verdades mais surpreendentes seja de que na verdade não existe uma mãe perfeita, e, do ponto de vista emocional, isso é uma boa notícia. O que um bebé precisa não é de perfeição, mas de uma presença suficientemente boa, capaz de falhar e reparar, de se ausentar e regressar. É nesse movimento imperfeito que se constrói a relação.

Ser mãe é, então, também um processo de aprendizagem sobre limites, os do bebé, mas também os seus. É aprender que cuidar do outro implica, inevitavelmente, cuidar de si. Não como luxo, mas como condição. Um auto cuidado altamente recomendável e necessário.

E talvez ninguém tenha dito isto de forma clara mas uma mãe sentir ambivalência, ou seja, amor e cansaço, ternura e irritação, não só é normal, como faz parte de um vínculo saudável e compreensível.

No fundo, ser mãe não é ser apenas um lugar de entrega. É também continuar a ser uma pessoa inteira, com desejos, falhas, necessidades e história própria. Talvez o gesto mais profundo da maternidade não seja acertar sempre, mas interromper ciclos. Olhar para o que se herdou, suportar a ambivalência, tolerar a imperfeição, e ainda assim, construir algo novo.

Dr. João P. Lagarelhos

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