O que realmente celebramos no Dia Mundial da Saúde e do Desporto
Um ponto de partida: mexer não é apenas fazer.
No passado dia 11 de abril, no âmbito da celebração do Dia Mundial da Saúde e do Desporto, tive a oportunidade de partilhar uma palestra em conjunto com a equipa da Learn2Be e da BE Brave. Mais do que falar sobre exercício físico, o foco foi lançar uma reflexão essencial: o movimento não é apenas comportamento. É desenvolvimento.
Durante muito tempo, associámos o movimento à estética, à performance ou à disciplina. Mas essa perspetiva é limitada. A verdadeira mais-valia do movimento acontece onde não vemos: no cérebro, na regulação emocional e na capacidade de criar novas possibilidades de resposta ao mundo.
Corpo e cérebro: um sistema integrado
Para compreender isto, é necessário abandonar uma ideia antiga: a de que o cérebro funciona de forma isolada. Não existe um cérebro separado do corpo, somos um sistema integrado.
O metabolismo, neste contexto, não é apenas gasto energético. É o funcionamento coordenado de todos os sistemas do corpo (coração, pulmões, músculos e sistema nervoso) a trabalhar em conjunto para manter equilíbrio interno.
Quando nos movemos, organizamos esse sistema. A respiração regula-se, o ritmo cardíaco ajusta-se, a circulação melhora e o sistema nervoso equilibra-se. É essa organização que permite ao cérebro funcionar melhor.
O impacto invisível do movimento
O movimento altera a química cerebral, aumentando substâncias como dopamina, serotonina e noradrenalina, ligadas à energia, motivação e foco. Por isso, muitas vezes, não é a motivação que nos leva a agir, é o movimento que cria a motivação.
Ao mesmo tempo, promove a libertação de BDNF, uma proteína essencial para o cérebro. O BDNF ajuda a criar e reforçar ligações entre neurónios, facilitando a aprendizagem e a adaptação. Podemos pensar nele como um fertilizante: não cria o jardim, mas cria as condições para que ele cresça. Quando esse “terreno” melhora, o pensamento organiza-se, as emoções equilibram-se e o comportamento ajusta-se.
Movimento é informação
O movimento não é apenas ação. É informação. Cada movimento ativa sistemas que dizem ao cérebro: onde está o corpo, como se está a mover e como se relaciona com o espaço. É isso que permite regular estados internos e sustentar funções como atenção, planeamento e aprendizagem. Por isso, quando uma criança corre ou sobe uma árvore, não está apenas a brincar. Está a desenvolver o seu cérebro.
Regulação em ação: o exemplo da escalada
Imagina alguém a meio de uma parede de escalada, a olhar para cima e a pensar: “não consigo”. O corpo reage: tensão, respiração acelerada, mãos a suar. E naquele momento, não é a força que resolve. É a regulação. Se a pessoa conseguir parar, respirar e focar-se no próximo movimento, o corpo reorganiza-se e o cérebro acompanha.
A escalada mostra-nos isto de forma clara: o desafio vem primeiro, muitas vezes acompanhado de medo (da altura, da falha, do desconhecido). Mas é nesse processo que se constrói algo essencial: a perceção de capacidade. “Não consigo” transforma-se, com experiência, em “eu sou capaz”.
Desenvolvimento é criar possibilidades
Então, desenvolver não é encaixar num padrão. É ampliar a capacidade de resposta. O movimento não elimina o desafio, mas dá ferramentas para o enfrentar. E isso é o que realmente cria adaptação.
Movimento para todos: o papel do exercício adaptado
Mesmo em contextos de dificuldades cognitivas, motoras ou de desenvolvimento, o movimento continua a ser essencial.
Muitas vezes, o problema não é falta de capacidade, é falta de condições ajustadas.
O exercício adaptado permite: criar experiências de sucesso, melhorar a regulação e aumentar a autonomia. E isso tem impacto direto na confiança e na identidade.
No caso das crianças, este ponto torna-se ainda mais crítico. Em fases de desenvolvimento, é natural existirem assimetrias, dificuldades transitórias ou desafios mais estruturais, sejam eles físicos ou cognitivos. Quando o movimento não é ajustado a essas necessidades, a criança pode evitar a ação, reduzir a exploração e, com isso, limitar oportunidades de desenvolvimento.
Quando o movimento é adaptado (ao ritmo, à capacidade e ao nível de desafio adequado) cria-se o contrário: mais envolvimento, mais tentativa, mais experiência. E é essa repetição de experiências ajustadas que permite ao sistema nervoso organizar-se, desenvolver-se e ganhar novas competências. Ou seja, não se trata apenas de “mexer mais”, mas de mexer melhor para aquele momento de desenvolvimento.
9 formas simples de integrar movimento no dia a dia
O movimento com impacto não precisa de ser complexo. Pequenas estratégias podem fazer uma grande diferença.
Em casa
- Percurso com obstáculos
Cria um caminho com almofadas, cadeiras ou caixas entre dois pontos da casa.
Exemplo: sair do sofá, passar por cima de almofadas, contornar uma cadeira e chegar à mesa.
Isto trabalha coordenação, planeamento e atenção. - Missão com objetos
Dá uma tarefa com critérios específicos.
Exemplo: “Vai ao quarto e traz 3 objetos azuis.”
Podes aumentar a dificuldade: “1 grande, 1 pequeno e 1 macio.”
Trabalha memória, foco e execução. - Alternância motora
Combina movimentos grandes com tarefas finas.
Exemplo: saltar 5 vezes – apanhar moedas – colocá-las numa caixa.
Isto integra corpo e cognição.
Na rua
- Caminhar com variações
Muda o ritmo e o tipo de movimento.
Exemplo: andar devagar – correr até ao próximo banco – andar de lado – saltar pequenas linhas no chão.
Trabalha adaptação e consciência corporal. - Exploração do ambiente
Usa o espaço como desafio.
Exemplo: subir um pequeno muro, equilibrar-se num passeio, descer uma rampa.
Promove coordenação e tomada de decisão. - Jogo de orientação
Define pontos e objetivos.
Exemplo: “Vai até à árvore, depois ao banco, depois volta pelo caminho mais curto.”
Estimula planeamento e cognição espacial.
Com crianças
- Percurso com regras cognitivas
Combina movimento com regras.
Exemplo: só podes saltar nas almofadas vermelhas, parar nas azuis e rastejar nas verdes.
Trabalha atenção e controlo. - Recolha e organização
Criar uma tarefa estruturada.
Exemplo: apanhar brinquedos e colocá-los em caixas específicas (cores ou categorias).
Desenvolve organização e função executiva. - Sequência de movimentos
Criar uma rotina com ordem.
Exemplo: saltar – rodar – apanhar bola – colocar num cesto. Depois acrescentar mais passos.
Trabalha memória, coordenação e planeamento.
Conclusão: mais do que mexer
No fundo, a mensagem é simples: mexer não é apenas fazer. É desenvolver. Desenvolver o corpo, sim. Mas sobretudo a capacidade de regular, adaptar e responder. O movimento organiza o metabolismo. O metabolismo sustenta o cérebro. E o cérebro molda a forma como pensamos, sentimos e agimos.
Tal como na escalada, não se trata apenas de chegar ao topo. Trata-se de quem nos tornamos no processo.
E talvez seja essa a verdadeira mais-valia do movimento: não nos muda para cabermos melhor no mundo. Cria mais possibilidades para existirmos dentro dele. Porque, talvez, o objetivo nunca tenha sido mexer mais. Talvez, tenha sido perceber que, cada vez que nos movemos, estamos a construir quem somos.
Psicólogo Clínico
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