O cancro, nas suas diversas formas, é uma doença que continua a aumentar o número de casos por todo o mundo, com altas taxas de prevalência em pessoas de ambos os sexos e em todas as faixas etárias, sendo uma das principais causas de mortalidade por todo o mundo.
De facto, a Eurostat, em Portugal, diz-nos que uma em cada quatro pessoas morre de cancro, apresentando um aumento anual de mortalidade de cerca de 0,50%. Esta patologia caracteriza-se pela proliferação anormal de células, ou seja, pelo crescimento desregulado de células que o organismo não necessita, tendo vários factores de risco.
Contudo, fruto de todo o investimento científico para melhor compreender esta doença e tecnológico para melhor promover resposta aos seus efeitos, muitos tipos de cancro passaram a ter cura, sobretudo quando diagnosticados precocemente, e mesmo quando não totalmente curados, passaram a ser exponencialmente melhor controlados.
No entanto, claro, a simples ideia desta doença está fortemente associada à fatalidade, ao fim, à dor, tanto pelo desconhecimento ainda presente, como pelas mudanças físicas inevitáveis, que afectam significativamente as crenças do paciente, ao longo de todo o processo de tratamento – geralmente bastante doloroso – e de convivência com a doença –, tendo esta efeitos colaterais extremamente impactantes na vida da pessoa, como, por exemplo, perda da sua independência, alteração da sua imagem corporal, isolamento e tensão social, afastamento das actividades de interesse, anulação pessoal, dificuldade de focar nos objectivos pessoais, sofrer com estigma social e sentimentos de marginalização ou abandono, entre outras.
Por ser um processo de doença extremamente doloroso – ainda antes de se ter sequer um diagnóstico – pela eminência da morte e por se tratar de uma doença crónica com um prognóstico pouco favorável numa grande maioria de casos, este diagnóstico acarreta um desafio psicológico, emocional, interpessoal, familiar, vocacional e funcional, muito grande, tanto nos pacientes como nos seus familiares, sendo crucial o apoio psico-oncológico para informar, identificar, compreender e trabalhar os factores que afectam significativamente o paciente, tanto face ao seu tratamento, como à sua perspetiva psicossocial inerente a quem se perde e não se consegue encontrar, inerente a quem ama e tem medo de perder, inerente a quem vive e tem medo de morrer.
A psico-oncologia é uma ciência interdisciplinar que cruza diversas áreas, sendo uma delas a psicologia. Vem da necessidade de acompanhamento psicológico a um paciente oncológico, bem como à sua família e amigos. Desta forma, o papel do psicólogo é promover suporte psicossocial e psicoterapêutico na organização, estruturação e resiliência face às consequências deste diagnóstico, fomentando, o melhor possível, a qualidade de vida do paciente e das pessoas ao seu redor, focando-se essencialmente nas suas emoções.
Efectivamente, após o diagnóstico de doença oncológica é fundamental todo o apoio emocional de auto-regulação e estruturação da pessoa, através da aquisição de ferramentas que lhe permitam dar resposta a este acontecimento impactante e stressante que é passar a viver continuamente com a incerteza do prognóstico da doença ou da esperança de vida e a dor crónica.
Mas se por um lado viver com uma doença é um desafio, sobreviver à doença também pode ser um caminho penoso e difícil, com consequências impactantes na qualidade de vida e na saúde da pessoa e dos que dela têm estado próximos durante todo o processo.
Depois do diagnóstico e do tratamento, sobreviver à doença implica novamente lidar com a ansiedade, a depressão e outros sintomas emocionais, que muitas vezes são a parte mais desafiante da doença.
A ansiedade com medo de morrer e a preocupação com as reincidências da doença. A ansiedade com medo de não ser suficiente, com medo do tempo perdido. A ansiedade com medo de já não ser aceite. A ansiedade com medo de fazer o incorrecto, de modo a que, quem sabe, a doença volte a emergir. A ansiedade com medo de voltar a ser.
Esta sensação de ansiedade muitas vezes está relacionada com a velocidade veloz que se passa do diagnóstico ao tratamento e, sobretudo, a qualidade experienciada durante o processo. A doença, os médicos, o ambiente hospitalar, a recuperação, os outros, os nossos, o sistema. Activa-se o modo de sobrevivência “fight or flight”, mesmo que, por vezes, de uma forma mais passiva, para que se consiga tomar uma decisão difícil para ultrapassar o desafio. Este modo deixa pouco espaço para processar o que se foi passando.
É quando chega o fim do tratamento que a pessoa cai em si, percebendo o que aconteceu, o que perdeu, o que doeu. Exausta, com demasiado tempo para pensar e ruminar nesta dor e na incerteza do que está a sentir e do que possa surgir.
Tudo isto, abala a percepção de si e tem impacto na memória e capacidades cognitivas, causando extrema fadiga e frustração, que leva a respostas de stress, que, por sua vez, afectam o sono e o estado de vigilância, bem como a tolerância ao desafio, tendo mais propensão para impulsividade e irritabilidade, impactando significativamente, assim, as relações com aqueles que mais ama.
A psicologia é então um pilar fundamental para dar voz e trabalhar as ferramentas necessárias de reconciliação com o próprio, de modo a reencontrar, aceitar e estruturar a sua identidade, por vezes, significativamente afectada por toda a experiência em torno da doença, porque de facto:
O doente e o sobrevivente à doença oncológica merecem diminuir o sofrimento emocional e lidar com os seus sentimentos: o silêncio não é uma solução;
O doente e o sobrevivente à doença oncológica merecem gerir eficazmente o tratamento e ter um papel activo na tomada de decisão: o seu corpo é o seu templo;
O doente e o sobrevivente à doença oncológica merecem compreender, aderir e lidar com o tratamento e ou a doença oncológica: saber é cuidar;
O doente e o sobrevivente à doença oncológica merecem lidar com a dor e todas as consequências negativas do processo para que este corra o melhor possível: o corpo é um todo;
O doente e o sobrevivente à doença oncológica merecem gerir os seus sentimentos de depressão, ansiedade, desespero e desesperança: a dor tem voz;
O doente e o sobrevivente à doença oncológica merecem perceber as mudanças da aparência e funcionamento físico, que influenciam a aparência física, auto-estima, identidade, sexualidade e relações interpessoais: o essencial é invisível aos olhos;
O doente e o sobrevivente à doença oncológica merecem redefinir o seu papel e os seus objectivos de vida para criar uma visão de vida mais ajustada a si nesta nova fase a que chegou: a dor transforma;
O doente e o sobrevivente à doença oncológica merecem que os seus familiares e amigos tenham o devido apoio para também eles superarem as suas dores e desafios inerentes a toda a sua experiência neste processo, para que também eles consigam alcançar melhores resultados com eles próprios e ser um suporte diferencial para a pessoa e o seu próprio futuro: a união faz a força;
O doente e o sobrevivente à doença oncológica merecem ser ouvidos por quem os perceba e ter um espaço onde possam sofrer, zangar-se, desorganizar-se, estruturar-se, construir-se, fortalecer-se e superar-se, sejam quais forem os seus desafios enquanto pessoas: porque do medo à dor, cunha-se a ansiedade e a depressão.
Na Learn2be promovemos o bem-estar através do autoconhecimento de forma a poder ser o melhor de si, independentemente dos desafios que tenha de enfrentar na sua vida. Todos nós, sem excepção, temos um momento em que temos de perceber como lidar com algo que nos desafie de uma forma que, à partida, nos parece incontornável. A sós é sempre difícil, mas, como diz Jim Rohn, não é o soprar do vento que determina a direcção da rota, é a colocação das velas para que nos adaptemos ao caminho a navegar.
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