Mãe é símbolo de amor incondicional, de presença, de cuidado e de carinho.
Mas ser mãe tem sido um conceito demasiado romantizado ao longo das gerações, simbolizando anulação, renúncia, abnegação, entre outros conceitos excessivamente exigentes e até cruéis.
Como mãe, ela nasce pela primeira vez no mesmo dia que nasce o seu primeiro filho ou filha e pelas especificidades de cada um, enquanto mãe, vai nascendo de novo a cada parto.
“Porque os filhos não trazem manual de instruções?” – É por isso mesmo, uma pergunta muito ouvida.
No processo da maternidade, a mulher passa a ter uma nova identidade, a de mãe. A mãe que cuida, que ama, que protege, a que mesmo cansada fica porque quer ser presença, quer ser perfeita, quer ser o seu melhor, perdendo a perceção de si mesma enquanto individuo e das suas necessidades como desejos, carreira ou lazer e levando consequentemente à exaustão.
Neurobiologicamente, no pós-parto produzem-se várias alterações, de entre elas, um aumento do cortisol, o que é importante para que a mãe se mantenha em estado de alerta e oiça o bebé durante a noite, por exemplo, mas quando há demasiada tensão o excesso de cortisol pode impedir que a mãe usufrua de um sono profundo (mesmo que o possa fazer), mantendo o organismo em hipervigilância constante, dificultando assim, a conexão prazerosa ao bebé e aumentando os riscos de uma possível depressão.
Isto acontece, não apenas, porque neurobiologicamente existem alterações significativas, mas também porque faz parte da romantização incutida ao longo de gerações.
Na realidade, é comum a mulher acreditar que as inseguranças, as dificuldades e a exaustão que sente são fruto da sua inabilidade e possível falta de instinto natural como mãe, porque raramente se ouve falar dos verdadeiros desafios da maternidade ou da angústia a ela associada por não se conseguir ser completa nem perfeita.
Ser Mãe implica redefinir prioridades e isso implica conflito emocional, se por um lado pode sentir amor, ternura e sentimentos de proteção e cuidado intensos pelo novo e pequeno ser, por outro pode sentir saudade da identidade e liberdade anteriores assim como a consequente culpa e angústia.
O mito que é preciso desmistificar é o de que ser mãe não é por si só a plenitude nem a maior das felicidades. Ser mãe também é lidar todos os dias com medos, com frustrações, com noites mal ou não dormidas, com impotências, com preocupações, com ausência de tempo para si própria, com imprevistos, com exaustão, com inseguranças, é querer fazer melhor mas não saber como e muitas dessas mães ainda lidam com a vergonha de não se sentirem capazes de ser uma “boa” mãe e o pior, é que muitas fazem-no em silêncio, não perguntam, não pedem ajuda, não se expõem por vergonha e medo porque acreditam serem a exceção à maternidade instintivamente perfeita.
A culpa não faz sentido, não constrói. É normal sentir cansaço, impaciência, irritabilidade. É importante falar com outras mães, trocar ideias e experiências, perceber a subjetividade da experiência individual, aceitar e validar emoções e sentimentos e criar ou reforçar tudo o que possa alimentar a harmonia e o bem-estar da vivência de ser Mãe, tal como a criação, sempre que possível, de uma rede de apoio para que possa descansar convenientemente.
É também importante identificar e minimizar ou neutralizar expectativas, pressões e crenças externas que estejam a dificultar a sua experiência. Lembre-se que pedir ajuda é fundamental e se lhe fizer sentido um espaço onde se pode expressar sem se sentir julgada ou julgado, contacte-nos, permita-se, marque uma consulta e seja o melhor de si!
Psicóloga Clínica
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