Neurodivergência na vida adulta: quando o problema não é falta de vontade
A neurodivergência na vida adulta continua a ser frequentemente interpretada à luz de conceitos moralizantes, como “preguiça”, “falta de disciplina” ou “desorganização”. No entanto, a evidência científica sugere uma leitura diferente: muitos destes comportamentos refletem formas distintas de funcionamento cerebral, e não falhas de caráter.
Entre as várias condições que ilustram esta realidade, a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) destaca-se como um exemplo paradigmático. Em adultos, a PHDA não se manifesta apenas através de desatenção ou inquietação, mas sobretudo através de dificuldades nas funções executivas, responsáveis pela regulação do comportamento orientado para objetivos.
Quando querer não chega: a disfunção executiva na PHDA
As funções executivas incluem processos como planeamento, organização, memória de trabalho, controlo inibitório e, de forma particularmente relevante, iniciação de tarefas.
A PHDA deve ser conceptualizada como uma perturbação de autorregulação, no qual existe um défice na capacidade de transformar intenções em ações no momento adequado.
A PHDA também é vista por muitos como um conjunto de défices em múltiplos domínios executivos, incluindo a ativação — a capacidade de iniciar tarefas, especialmente quando estas exigem esforço prolongado ou não oferecem recompensa imediata.
Procrastinação na PHDA: uma expressão de diferença, não de desinteresse
A procrastinação é frequentemente entendida como um comportamento evitável, associado à falta de motivação. Contudo, na PHDA adulta, este fenómeno deve ser interpretado como uma manifestação de disfunção executiva.
Indivíduos com PHDA relatam frequentemente um padrão consistente: sabem o que precisam de fazer, reconhecem a importância da tarefa, mas experienciam dificuldade em iniciar ou manter a ação.
Assim, o que externamente pode ser interpretado como adiamento voluntário, corresponde internamente a um bloqueio na ativação comportamental.
O cérebro neurodivergente: diferenças na motivação e recompensa
A compreensão da PHDA enquanto expressão de neurodivergência implica considerar diferenças nos sistemas neurobiológicos subjacentes ao comportamento.
Estudos de neuroimagem demonstram alterações nos circuitos dopaminérgicos associados à motivação e antecipação de recompensa. Estas diferenças afetam particularmente a capacidade de iniciar tarefas com recompensas diferidas, favorecendo a resposta a estímulos imediatos.
Este padrão não reflete falta de interesse, mas sim uma forma distinta de processamento motivacional, característica de um cérebro neurodivergente.
Implicações para a intervenção
A conceptualização da PHDA enquanto perturbação da autorregulação e da execução tem implicações diretas na prática clínica.
Esta deve centrar-se menos na tentativa de aumentar a motivação intrínseca e mais na criação de condições externas que facilitem a execução.
Podem incluir:
- Estruturação do ambiente
- Divisão de tarefas em unidades menores
- Utilização de pistas externas (visuais ou temporais)
- Intervenções cognitivo-comportamentais focadas na ativação
Conclusão: reformular a narrativa da neurodivergência
A neurodivergência na vida adulta desafia a ideia de que todos os indivíduos partilham as mesmas capacidades de autorregulação e execução.
No caso da PHDA, a dificuldade em iniciar tarefas não é um reflexo de preguiça ou desinteresse, mas sim uma manifestação de diferenças nas funções executivas e nos sistemas motivacionais.
Portanto, não se trata de falta de vontade.
Trata-se de um cérebro que funciona de forma diferente.
Compreender esta distinção é fundamental não apenas para a precisão científica, mas para promover intervenções mais eficazes, reduzir o estigma e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos neurodivergentes.
Neste sentido, a intervenção psicológica assume um papel central, permitindo não só compreender o funcionamento individual, mas também desenvolver estratégias ajustadas às especificidades de cada pessoa.
Se se revê neste padrão de dificuldade em iniciar, organizar ou manter tarefas, procurar acompanhamento psicológico pode ser um passo importante para trabalhar com o seu funcionamento — e não contra ele.
Psicóloga Clínica
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Referências bibliográficas
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