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O Corpo que Nunca se Cala

Há perguntas que fazemos durante toda a vida. Outras nunca chegam verdadeiramente a acontecer. Não porque sejam difíceis, mas porque crescemos convencidos de que já sabemos a resposta.

Talvez esta seja uma delas:

Será possível passar uma vida inteira a cuidar do corpo sem nunca aprendermos verdadeiramente a viver dentro dele?

Vivemos numa época que fala constantemente sobre saúde. Falamos de alimentação, de exercício, de descanso, de prevenção e de longevidade. Nunca tivemos tanto conhecimento, tanta tecnologia e tantas ferramentas para monitorizar o corpo. Medimos passos, frequência cardíaca, horas de sono, massa muscular, gordura corporal e calorias consumidas. E, ainda assim, raramente nos perguntamos como é que vivemos dentro dele.

Esse é provavelmente o maior paradoxo do nosso tempo. Nunca tivemos tanta informação sobre o corpo e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos estado tão distantes da experiência de o habitar. Aprendemos a observá-lo, a avaliá-lo e, muitas vezes, a julgá-lo. Tornámo-nos especialistas em medir aquilo que é visível e principiantes a compreender aquilo que verdadeiramente sustenta a experiência humana.

Durante demasiado tempo aprendemos a olhar para o corpo por partes. O coração. O cérebro. Os músculos. O peso. A postura. A alimentação. O treino. Mas um sistema nunca se compreende observando apenas as suas peças. Compreende-se pela forma como todas elas aprendem a funcionar em conjunto. E é precisamente aí que começa a verdadeira saúde.

Não na procura incessante do corpo perfeito, nem na ilusão de que existe uma fórmula universal para viver melhor, mas na capacidade de compreender que cada pessoa representa um equilíbrio diferente entre biologia, comportamento, emoções, contexto e história de vida. Um sistema não procura perfeição. Procura equilíbrio, adaptação e sustentabilidade.

Um dos maiores equívocos da nossa época é acreditar que um corpo saudável é necessariamente um corpo bonito. Confundimos estética com equilíbrio, aparência com saúde e desempenho com bem-estar. No entanto, um sistema nunca procura corresponder a um ideal. Procura apenas funcionar da melhor forma possível para a vida que tem diante de si.

Existe uma diferença profunda entre possuir um corpo e habitá-lo. Podemos passar anos a utilizá-lo para trabalhar, cuidar da família, cumprir responsabilidades, alcançar objetivos e corresponder às expectativas dos outros sem verdadeiramente desenvolver intimidade com ele. É até por isso mesmo que tantas pessoas só descobrem o corpo quando ele dói. Não porque o corpo tenha começado a falar nesse momento, mas porque foi o momento em que deixámos de conseguir ignorá-lo. Há vozes que passam anos a sussurrar antes de serem obrigadas a gritar. Como se a dor fosse a única linguagem suficientemente forte para interromper o ruído da vida.

No entanto, quando tudo funciona bem, quase nunca pensamos nele. Respiramos, caminhamos, aprendemos, descansamos, abraçamos e seguimos o nosso caminho como se tudo acontecesse por si só. A maior demonstração da extraordinária inteligência do corpo é precisamente esse trabalho em silêncio para que possamos viver.

Porém, só reparamos verdadeiramente nele quando alguma coisa deixa de funcionar. Não porque o corpo tenha permanecido em silêncio, mas porque, tantas vezes, deixamos de estar verdadeiramente presentes dentro dele para o escutar. Esperamos que o corpo grite para lhe prestarmos atenção.

Antes de conseguirmos explicar aquilo que sentimos, ele já encontrou uma forma de o expressar. A ansiedade altera a respiração antes de organizar os pensamentos. O medo aumenta a tensão muscular antes de encontrarmos uma razão para ele. A tristeza pesa no peito quando ainda procuramos palavras para a descrever.

O corpo comunica connosco muito antes de a consciência conseguir transformar essa experiência em linguagem.

Há uma curiosidade que encontro repetidamente na consulta. As pessoas conhecem o corpo que gostariam de ter. Conhecem a imagem que veem ao espelho. Conhecem aquilo que sentem que deveriam conseguir fazer. Mas poucas conhecem verdadeiramente o corpo onde vivem. Em parte porque cresceram a acreditar que o corpo é uma máquina que precisa de produzir, responder e aguentar.

E uma máquina avariada repara-se. Um sistema vivo calibra-se.

Existe uma antiga imagem da cultura japonesa que sempre me fez sentido: a ideia do corpo como um templo. Não porque seja perfeito, nem porque deva ser venerado, mas porque é nele que toda a vida acontece. Um templo não se respeita pela aparência. Respeita-se pela forma como é habitado.

Talvez tenhamos desaprendido essa forma de olhar para nós próprios.

Habitar o corpo é deixar de possuir uma máquina e passar a reconhecer uma morada.

É silenciar, por momentos, o julgamento estético para escutar o ritmo da própria respiração. É perceber que o corpo nunca foi um objeto destinado ao olhar dos outros. Sempre foi o único lugar onde a nossa vida realmente acontece.

E é precisamente quando deixamos de o tratar como um objeto que começamos, finalmente, a compreender aquilo que ele sempre tentou ensinar-nos.

Se o corpo é um sistema, então a verdadeira pergunta deixa de ser “como o fortalecemos?” e passa a ser outra: como aprendemos a viver em equilíbrio dentro dele?

Durante muito tempo associámos o movimento quase exclusivamente ao exercício físico, ao desempenho ou à estética. No entanto, mover o corpo nunca foi apenas fortalecer músculos ou melhorar a condição física. Sempre foi uma das formas mais naturais de organizar aquilo que somos.

A neurociência veio apenas confirmar aquilo que o corpo sempre soube. O cérebro nunca viveu isolado. Vive numa conversa permanente com a respiração, com a postura, com o ritmo cardíaco, com a tensão muscular e com cada movimento que fazemos. É por isso que duas pessoas podem atravessar exatamente a mesma situação e viver experiências completamente diferentes. O acontecimento é o mesmo. O estado do sistema nunca é.

É também por isso que, tantas vezes, esperamos pela motivação quando aquilo de que realmente precisamos é de dar o primeiro passo. Na psicologia comportamental sabemos que a ação precede frequentemente a vontade. Um pequeno comportamento gera uma experiência. Uma experiência repetida transforma a forma como nos vemos, aquilo que esperamos de nós próprios e, pouco a pouco, a nossa própria identidade. A expectativa pertence ao mundo daquilo que imaginamos; a experiência pertence ao mundo daquilo que vivemos. Enquanto a primeira depende do tempo, das circunstâncias, do outro e de tudo aquilo que escapa ao nosso controlo, a segunda devolve-nos ao único lugar onde verdadeiramente podemos exercer influência: o momento presente. É no concreto que recuperamos a sensação de capacidade. Quando permanecemos demasiado tempo naquilo que ainda não aconteceu, cresce a incerteza. E, com ela, a ansiedade. 

Esta é uma das razões pelas quais nenhuma criança precisa de aprender a mover-se. Antes de aprender a falar, já explora. Antes de compreender o mundo, já corre, sobe, salta, cai e volta a levantar-se. O movimento nunca foi apenas deslocação. Foi sempre descoberta. Foi assim que começámos a conhecer o mundo e, sem nos apercebermos, também a nós próprios.

À medida que crescemos acontece quase o inverso. Aprendemos a explicar tudo e deixamos, muitas vezes, de sentir. Tornamo-nos especialistas em pensar sobre a vida e, por vezes, estranhos dentro do próprio corpo.

Mas há momentos que todos reconhecemos. Momentos em que tudo parece encontrar o seu lugar.

Conduzimos, escrevemos, praticamos um desporto, tocamos um instrumento ou resolvemos um problema sem pensar em cada gesto. Não porque deixámos de sentir medo. Não porque nos tenhamos tornado perfeitos. Simplesmente porque, durante alguns instantes, deixámos de lutar contra nós próprios. O corpo encontrou um ritmo. E a mente encontrou espaço.

Essa é, sem dúvida, uma das formas mais bonitas de confiança. Não a certeza de que tudo vai correr bem, mas a tranquilidade de saber que somos capazes de responder ao próximo passo.

Na verdade, foi a escalada que tornou esta ideia completamente evidente para mim.

Quem observa uma parede de escalada vê apenas apoios, força e altura. Quem escala aprende outra coisa. Aprende que não existe um movimento perfeito. Existe apenas o movimento certo para aquele corpo, naquele momento. Cada pessoa encontra um caminho diferente para resolver exatamente o mesmo problema. E o desenvolvimento humano funciona da mesma forma. O objetivo nunca foi encontrar uma forma ideal de viver. Foi descobrir a forma mais autêntica, adaptada e funcional para a pessoa que somos.

É por isso que a escalada nunca me ensinou apenas a subir paredes. Ensinou-me que a adaptação vale mais do que o controlo e que a presença vale mais do que a pressa. Há momentos em que insistir é inteligência. Outros em que recuar é maturidade. Há movimentos que ontem funcionavam e hoje já não servem. E reconhecer isso não significa fraqueza. Significa crescimento.

E essa é a maior diferença entre um sistema vivo e uma máquina. Porque, sim, uma máquina repete, um sistema adapta-se.

Ao longo da vida todos experimentamos momentos em que essa adaptação deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade. Uma lesão, uma doença, o envelhecimento ou uma mudança inesperada obrigam-nos a renegociar a relação com o corpo. Nesses momentos percebemos que recuperar não significa apenas cicatrizar um tecido ou voltar a executar um movimento. Significa recuperar a confiança para voltar a viver dentro dele.

Recuperar o movimento é importante. Recuperar a confiança para voltar a viver esse movimento é, muitas vezes, a verdadeira recuperação.

Essa é, muitas vezes, a recuperação mais difícil e, por isso, também a mais importante.

Costumamos dizer, pela voz de Saint-Exupéry, que “o essencial é invisível aos olhos”. O mesmo acontece com a saúde. Aquilo que verdadeiramente a sustenta raramente se vê. Não aparece num espelho nem numa fotografia. Está na forma como respiramos perante o medo, como respeitamos os nossos limites, como aceitamos que nem todos os dias serão iguais e como escolhemos cuidar de nós muito antes de precisarmos de nos reparar.

O corpo nunca nos pediu perfeição. Pediu-nos presença.

Passamos demasiado tempo a perguntar ao corpo quanto pesa, quanto corre ou quanto consegue produzir. Talvez esteja na altura de lhe fazermos outra pergunta.

Como é viver dentro de ti?

Porque o corpo nunca foi um objeto para o olhar dos outros. Sempre foi a única morada onde toda a nossa vida acontece.

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