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Estamos todos viciados nas redes sociais? A resposta pode não ser tão simples.

“Vou só ver uma coisa rápida”

Provavelmente, todos nós já dissemos esta frase.

Abrimos o Instagram apenas para responder a uma mensagem e, sem perceber muito bem como, passaram vinte minutos. Entramos no TikTok para ver um único vídeo e, quando damos por isso, já estamos há quase uma hora a deslizar o dedo pelo ecrã. Pegamos no telemóvel quase automaticamente enquanto esperamos pelo autocarro, durante os intervalos do trabalho, enquanto vemos televisão ou até poucos minutos antes de adormecer.

Para muitas pessoas, este comportamento tornou-se tão habitual que já quase deixa de ser questionado.

Vivemos numa sociedade profundamente ligada ao mundo digital. As redes sociais acompanham-nos desde o momento em que acordamos até ao momento em que nos deitamos. São utilizadas para comunicar, trabalhar, estudar, procurar informação, acompanhar notícias, criar relações, divulgar projetos e até procurar apoio emocional.

Mas, ao mesmo tempo, nunca se falou tanto sobre dependência das redes sociais.

Expressões como “estamos todos viciados” ou “ninguém consegue largar o telemóvel” tornaram-se cada vez mais frequentes. Basta observar uma sala de espera, um restaurante ou um transporte público para perceber que, muitas vezes, existem mais pessoas a olhar para um ecrã do que umas para as outras.

Mas será que utilizar frequentemente as redes sociais significa, obrigatoriamente, que existe uma dependência?

A resposta é não.

E compreender esta diferença é provavelmente um dos aspetos mais importantes quando falamos sobre saúde mental no contexto digital.

Utilizar muito não significa estar dependente

Uma das ideias mais comuns é acreditar que o tempo passado nas redes sociais é suficiente para determinar se existe ou não uma dependência.

Contudo, em Psicologia, o comportamento humano raramente pode ser explicado apenas pela quantidade.

Duas pessoas podem utilizar as redes sociais exatamente durante o mesmo número de horas por dia e, ainda assim, apresentar níveis completamente diferentes de funcionamento psicológico.

Imagine, por exemplo, duas pessoas que utilizam o Instagram cerca de quatro horas diariamente. A primeira trabalha na área do marketing digital, comunica com clientes através da plataforma, cria conteúdos e, no final do dia, consegue desligar o telemóvel sem grande dificuldade. A segunda sente necessidade constante de verificar notificações, interrompe tarefas importantes para consultar o telemóvel, sente ansiedade quando fica sem internet e continua a utilizar as redes sociais mesmo percebendo que isso está a prejudicar o sono, o trabalho e as relações pessoais.

À primeira vista, ambas passam muito tempo online. Mas apenas uma poderá estar a desenvolver um padrão verdadeiramente problemático. É precisamente aqui que reside uma das maiores diferenças entre utilização intensa e dependência.

Quando é que o uso deixa de ser saudável?

Embora a dependência das redes sociais ainda continue a ser alvo de investigação científica e não constitua, atualmente, um diagnóstico autónomo nos principais manuais de classificação das perturbações mentais, existe um consenso crescente relativamente aos comportamentos que podem indicar uma relação pouco saudável com estas plataformas.

Um dos primeiros sinais costuma ser a dificuldade em controlar o tempo de utilização: A pessoa estabelece limites para si própria, promete que ficará apenas alguns minutos online ou decide que não irá utilizar o telemóvel durante determinada atividade. No entanto, acaba repetidamente por ultrapassar esses limites, muitas vezes sem perceber exatamente como isso aconteceu.

Outro sinal importante é a perda gradual de interesse por atividades que anteriormente eram prazerosas: Ler um livro, praticar exercício físico, conversar com amigos presencialmente ou simplesmente descansar tornam-se atividades menos apelativas quando comparadas com a estimulação constante proporcionada pelas redes sociais.

Com o tempo, algumas pessoas começam também a experienciar desconforto emocional sempre que não conseguem aceder ao telemóvel. Sentem inquietação, irritabilidade, ansiedade ou uma necessidade constante de verificar se receberam novas notificações.

Curiosamente, muitas vezes nem existe nenhuma notificação. Existe apenas a necessidade de confirmar.

Outro aspeto particularmente relevante prende-se com a continuidade do comportamento, apesar das consequências negativas: A pessoa reconhece que está a dormir menos, que se concentra pior no trabalho ou nos estudos, que passa menos tempo com a família ou que sente maior ansiedade após utilizar determinadas plataformas. Mesmo assim, continua a repetir exatamente o mesmo comportamento.

E esta talvez seja uma das características mais marcantes de qualquer comportamento aditivo: saber que algo nos faz mal, mas sentir enorme dificuldade em deixar de o fazer.

O problema não está apenas no telemóvel

Existe uma tendência para responsabilizar exclusivamente as redes sociais. Contudo, a realidade psicológica é muito mais complexa.

As redes sociais são ferramentas. Aquilo que verdadeiramente importa é a relação que cada pessoa estabelece com elas.

Para algumas pessoas, representam uma forma de manter contacto com familiares que vivem longe. Para outras, constituem uma oportunidade de aprendizagem, trabalho ou divulgação profissional.

Existem comunidades online que oferecem apoio emocional, informação credível e até um importante sentimento de pertença. Por isso, dizer que “as redes sociais são más” seria uma simplificação excessiva. O verdadeiro desafio consiste em compreender porque é que algumas pessoas conseguem utilizá-las de forma equilibrada enquanto outras sentem uma necessidade quase constante de regressar ao ecrã.

E, para responder a esta questão, precisamos de olhar para a forma como o nosso cérebro funciona

Se sentes que o tempo passado online está a afetar o teu bem-estar, as tuas relações, o teu sono, a tua autoestima ou a tua capacidade de desfrutar da vida offline, pedir ajuda pode ser um passo importante. A psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender estes padrões, desenvolver estratégias mais saudáveis e construir uma relação mais equilibrada contigo, com os outros e com a tecnologia.

Cuidar da tua saúde mental é, também, aprender a escolher onde colocas a tua atenção. E eu estou aqui para te acompanhar nesse processo.

Referências bibliográficas

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