Já reparaste que, quando estás com ansiedade, os ombros sobem? Que, quando há tristeza, o corpo parece pesar? Que, quando te sentes bem, até a forma como caminhas muda?
Não é coincidência. É o teu corpo a comunicar contigo.
Durante muito tempo, mente e corpo foram vistos como duas entidades separadas: a mente pensa e o corpo executa. Hoje sabemos que esta divisão é artificial. A investigação tem vindo a demonstrar que aquilo que sentimos influencia o corpo e, da mesma forma, aquilo que fazemos com o corpo influencia a forma como pensamos, sentimos e reagimos ao mundo.
O corpo não é apenas um veículo que transporta a mente. É um participante ativo na nossa experiência emocional.
E esta ligação funciona nos dois sentidos.
O Corpo Também Conta a Nossa História
Pensa na última semana. Se foi particularmente desafiante, onde é que sentiste esse peso?
Talvez no pescoço. Talvez nas costas. Talvez naquele aperto no peito que aparece sem aviso.
As emoções manifestam-se frequentemente através do corpo. O stress prolongado pode traduzir-se em tensão muscular, alterações da respiração, fadiga ou desconforto físico. Muitas vezes, apercebemo-nos primeiro destes sinais corporais antes mesmo de conseguirmos identificar aquilo que estamos a sentir.
O corpo vai-nos dando informação constante sobre o nosso estado interno.
E, se aquilo que sentimos se reflete no corpo, também é verdade o contrário: a forma como utilizamos o corpo pode influenciar aquilo que sentimos.
O Movimento como Regulador Emocional
A investigação sugere que diferentes estados emocionais tendem a estar associados a padrões corporais distintos. A alegria relaciona-se frequentemente com posturas mais abertas e movimentos expansivos. A tristeza tende a associar-se a movimentos mais lentos e recolhidos. A ansiedade pode traduzir-se em maior tensão muscular e agitação.
Mas existe um aspeto particularmente interessante: quando alteramos conscientemente a nossa postura, a respiração ou a forma como nos movemos, podemos também influenciar o nosso estado emocional.
Não é magia. É fisiologia.
Quando nos movimentamos, o sistema nervoso responde e começa a receber uma mensagem de segurança. A respiração abranda. A tensão diminui. O corpo percebe que já não precisa de estar constantemente em alerta.
É por isso que, muitas vezes, depois de uma caminhada nos sentimos mais leves. É também por isso que alongar o corpo depois de um dia difícil pode fazer uma diferença maior do que imaginávamos.
A Atenção Também Molda o Bem-Estar
Aquilo a que prestamos atenção influencia a forma como pensamos, sentimos e reagimos. Quando passamos grande parte do tempo focados nas preocupações, o cérebro permanece mais atento às ameaças e o corpo acompanha esse estado através de maior tensão e sensação de sobrecarga.
Mas podemos escolher direcionar a atenção para o momento presente. Ao focarmo-nos na respiração, no movimento ou nas sensações do corpo, interrompemos, ainda que por instantes, o ciclo constante de pensamentos e promovemos uma maior regulação emocional.
Experimenta. Levanta-te. Endireita as costas. Respira profundamente três vezes. Move o corpo durante dois minutos — pode ser caminhar, alongar ou simplesmente dar alguns passos.
Depois observa como te sentes.
Movimento com Presença
Mover o corpo não é o mesmo que o mover com consciência.
Podemos caminhar enquanto pensamos nos problemas do dia ou caminhar atentos à respiração, aos pés no chão e ao ritmo do corpo. A atividade pode ser a mesma, mas a experiência é diferente.
Desafio Semanal
Esta semana, reserva dez minutos para te moveres, sem distrações. Caminha, alonga ou dança.
Antes de começares, pergunta-te: Como está o meu corpo? Como me sinto?
No final, faz novamente a mesma pergunta.
Talvez a mudança seja subtil. Talvez seja evidente. O importante é dar espaço para a observar.
Cuidar da Mente é Também Cuidar do Corpo
A saúde mental não depende apenas dos nossos pensamentos. Também passa pela forma como cuidamos do corpo.
O movimento não substitui o acompanhamento psicológico quando existe sofrimento emocional persistente, mas é um dos mais importantes fatores de proteção da saúde mental e um complemento valioso à intervenção psicológica.
Mente e corpo influenciam-se continuamente. E, por vezes, cuidar de ambos pode começar com um gesto tão simples como dar o primeiro passo.
Psicóloga Clínica
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Referências
De Gelder, B. (2009). Why bodies? Twelve reasons for including bodily expressions in affective neuroscience. Philosophical Transactions of the Royal Society B.
Mahindru, A., Patil, P., & Agrawal, V. (2023). Role of Physical Activity on Mental Health and Well-Being: A Review. Cureus, 15(1).
Reed, C. L., Moody, E. J., et al. (2020). Body Matters in Emotion: Restricted Body Movement and Posture Affect Expression and Recognition of Status-Related Emotions. Frontiers in Psychology, 11.
Shafir, T., Tsachor, R. P., & Welch, K. B. (2016). Emotion Regulation through Movement. Frontiers in Psychology, 6, 2030.