No panorama contemporâneo, vivemos uma das maiores contradições da experiência humana. Por um lado, nunca fomos tão incentivados a perseguir a autonomia, o sucesso individual e a autossuficiência. Por outro, a solidão nunca foi tão prevalente, e o desejo de conexão profunda permanece como uma necessidade biológica e emocional inalienável.
No consultório, a questão que ecoa não é apenas como encontrar o amor, mas como sustentá-lo quando a cultura circundante nos empurra constantemente para o narcisismo e para o descarte rápido perante a imperfeição.
O que diferencia os casais que sucumbem à primeira crise daqueles que utilizam a adversidade como adubo para o crescimento? A resposta reside na construção deliberada de uma arquitetura invisível, mas indestrutível: o “Weness” (ou o Sentido de Nós).
1. A Terceira Entidade: Para Além do “Eu” e do “Tu”
Baseando-nos nos ensinamentos de Maurizio Andolfi, uma das figuras cimeiras da terapia familiar sistémica, percebemos que um casal funcional não é apenas a soma de dois indivíduos. É, na verdade, a criação de uma terceira entidade.
Imagine um triângulo onde numa base está o “Eu”, na outra o “Tu”, e no vértice superior está o “Nós”. Este “Nós” tem as suas próprias necessidades, a sua própria voz e a sua própria saúde. Muitas crises conjugais advêm do facto de os parceiros estarem tão focados em proteger os seus territórios individuais que se esquecem de alimentar a relação.
O “Weness” surge quando ambos compreendem que, ao investir na relação, não estão a perder a sua identidade, mas sim a ganhar um suporte que potencia o seu crescimento individual.
2. A Herança Transgeracional: O Casal como Reencontro de Histórias
Andolfi ensinou-nos que ninguém entra numa relação sozinho; trazemos connosco “fantasmas” e “anjos” das nossas famílias de origem. O amor moderno não se vive apenas no presente. Ele é profundamente influenciado pelas lealdades invisíveis e pelos padrões que herdámos.
O “Weness” exige a capacidade de olhar para o parceiro não como um oponente que falha, mas como um ser humano que carrega a sua própria bagagem geracional. Quando um casal integra estas histórias, o conflito deixa de ser um ataque pessoal e passa a ser compreendido como uma manifestação de feridas antigas que o “Nós”
pode ajudar a curar.
A compaixão torna-se, então, a ferramenta de navegação: “Eu compreendo porque é que o teu medo de abandono se manifesta desta forma, e juntos vamos construir uma segurança que a tua história anterior não permitiu.”
3. Da Postura Defensiva à Aliança Estratégica
A transição da postura de “eu contra ti” para “nós contra o problema” é, talvez, a mudança de paradigma mais difícil e recompensadora na clínica de casal. Na cultura do cancelamento e do individualismo feroz, o instinto inicial perante a dor é a retaliação ou o isolamento.
Cultivar o “Sentido de Nós” significa que, perante uma crise financeira, uma infidelidade, ou o desafio da parentalidade, o casal se posiciona do mesmo lado da barricada. O problema é externalizado. Não é “o teu problema com o dinheiro” ou “a tua incapacidade de comunicar”, mas sim “como é que nós, enquanto equipa, vamos gerir esta dificuldade”. Esta aliança sólida transforma a vulnerabilidade num recurso.
4. O “Weness” como Antídoto à Liquidez Moderna
Zygmunt Bauman descreveu o amor moderno como “líquido” — algo que flui e se molda sem oferecer resistência, mas que também se esvai facilmente por entre os dedos.
O individualismo extremo celebra a liberdade de partir ao primeiro sinal de desconforto. No entanto, a verdadeira liberdade, paradoxalmente, encontra-se no compromisso de ser conhecido profundamente por outra pessoa.
O “Weness” oferece o que a autonomia total não consegue: segurança ontológica. É saber que existe um porto seguro onde as nossas idiossincrasias são aceites e onde as nossas diferenças não são ameaças à nossa existência, mas sim nuances que enriquecem o todo.
No consultório, trabalhamos para que os casais deixem de ver a diferença como uma falha de compatibilidade e passem a vê-la como um complemento necessário — a diversidade de perspetivas dentro do “Nós” torna a entidade casal mais resiliente perante a incerteza do mundo exterior.
5. Práticas para Cultivar o Sentido de Nós
Para que este conceito não se fique pela teoria, é necessário traduzi-lo em rituais de conexão:
- A Linguagem do Nós: Substituir o “Eu quero” pelo “O que seria bom para
nós?”. Esta pequena mudança semântica reforça a prioridade da terceira
entidade. - O Resgate da Narrativa Comum: Recordar e celebrar a história do casal — como se conheceram, as superações passadas. Isto cria uma identidade
histórica que serve de âncora em tempos de tempestade. - Espaço para a Vulnerabilidade: Criar momentos onde se pode retirar a
“armadura” do dia a dia. O “Weness” floresce no solo da autenticidade, não na
perfeição das redes sociais
Conclusão: A Relação como Terreno Estável
Em última análise, o amor que perdura não é o amor que nunca enfrenta crises, mas sim aquele que utiliza a crise para reafirmar o contrato do “Nós”. Como Andolfi tão bem demonstrou na Malásia e ao longo da sua carreira, a terapia não serve apenas para resolver problemas, mas para ajudar o casal a redescobrir a beleza de pertencer a algo maior do que eles próprios.
Num mundo que nos pede para sermos cada vez mais rápidos, produtivos e independentes, o ato de cuidar do “Weness” é um ato de resistência. É a afirmação de que, apesar de sermos indivíduos inteiros, somos infinitamente mais fortes quando a nossa base de operações é um amor que integra, acolhe e transforma.
Psicóloga Clínica
Estou disponível para agendamentos na clinicas: