[language-switcher]

A Loucura do “Eu” e a Agonia do Amor Moderno

Este artigo analisa a crise dos relacionamentos contemporâneos sob a ótica da “Era do Ego”. Refletimos como se passou de um modelo de dever para um modelo de autossatisfação individual, gerido por tecnologias digitais, transformando o parceiro num objeto de consumo narcísico. É necessário resgatar o amor como um processo ativo e a aceitação da imperfeição como o único caminho para uma conexão autêntica.

Vivemos numa Era de hiperconectividade, mas nunca estivemos tão isolados. O amor moderno sofre de uma mutação radical: deixou de ser uma aliança de destino para se tornar um projeto de autoafirmação. Nesta “Era do Ego”, a busca pelo par ideal confunde-se com a busca por validação pessoal, onde o “outro” é frequentemente reduzido a um espelho da nossa própria imagem. Procuramos insistentemente mudar o outro, controlar o outro, exigimos que o casal seja perfeito para os outros, procuramos semelhança e somos indiferentes. Indiferentes à angústia do outro. Desprezamos a diferença e é precisamente essa diferença que mantém o desejo aceso (Facci, 2022).

Nos dias de hoje, observamos uma banalidade da palavra Amor. Amamos tudo e não amamos nada. Assistimos a um afastamento da profundidade e complexidade da relação. A comunicação é quase um monólogo, a falta de verdadeira escuta e a crítica constante destroem a relação.

Uma questão muito interessante abordada por Gameiro (2024), invoca que temos de conhecer o outro, aceitar e respeitar as diferenças e formas do outro se exprimir. É precisamente na diferença que nasce o desejo e se fortalece a união.

A saúde de um casal depende da capacidade de ambos “alimentarem” a relação, mesmo quando o ego se sente frustrado. O ego espera “ser amado” para agir, no entanto, o amor é o resultado da ação de cuidar da relação (Fromm).

Erich Fromm, já em 1956, alertava para a “orientação mercantil” do afeto. Hoje, essa previsão materializa-se nos algoritmos das redes sociais. O ego moderno não procura o amor, mas “ser amado” e “ser validado”. O amor deixou de ser uma atividade (dar) para ser uma transação (receber), onde avaliamos o parceiro pelo seu valor de mercado: beleza, status e estilo de vida.

O psicanalista Guilherme Facci destaca que um dos maiores problemas nos casais de hoje, é a incapacidade de lidar com a falta. Tentamos que o outro seja perfeito, igual a nós. Com tudo isso, conseguimos acabar com a relação, com o desejo e com a possibilidade de ter uma relação amorosa feliz (feliz, não perfeita!). Precisamos ter presente que o que nos une é esta relação de cuidar da loucura do outro e sentirmos que somos cuidados. Claro está que só é possível quando ambos querem e acreditam. Ou seja, quando não é assim, geralmente em ligações mais tóxicas, devemos permitir que se encerre essa ligação e se libertem para encontrar um novo e real amor.

O ego infantilizado pela cultura do prazer imediato não suporta o “outro real”. Amamos enquanto o outro nos faz sentir que somos especiais; quando o parceiro apresenta falhas ou discordâncias, o ego ferido retira o afeto e procura o próximo “match”, à procura do parceiro ideal.

O que mais fortalece uma relação é a presença do outro na nossa vida. Se o outro acolhe a nossa angústia e se nós somos capazes de acolher a angústia do outro, nós teremos muitas hipóteses de ter conseguido ter uma relação muito feliz. Feliz! Não perfeita, na medida em que não existem relações perfeitas o tempo todo, precisamente para dar espaço à falta, à diferença, ao acolhimento das angústias de um e do outro.

Neste sentido, é muito importante não procurar o parceiro ideal, mas sim amar, cuidar e acolher o parceiro que escolhemos. Tentar “consertar”, “arranjar” o outro só nos afasta mais dessa possível relação.

Quando conseguimos harmonia neste processo, o tal caminho das pedras que nos fala José Gameiro, estamos habilitados a permanecer juntos numa união real, que faz sentido e nos completa.

Para contrariarmos este amor moderno na “Era do Ego”, cada um precisa ser autêntico, igual a si mesmo, com autocuidado e desenvolvimento pessoal, bem como interessado no outro, com as suas diferenças, virtudes, defeitos e feitios.

Para amar, é preciso coragem para ser vulnerável, algo que o ego moderno, protegido por ecrãs e filtros, evita a todo o custo. A modernidade líquida de Bauman descreve estas conexões: laços fracos que podem ser desfeitos ao primeiro sinal de desconforto, priorizando sempre a autonomia individual sobre o vínculo.

O desafio de hoje não é encontrar a pessoa certa, mas tornar-se a pessoa capaz de sustentar um vínculo. Amar, na “Era do Ego”, é um ato revolucionário de resistência, é a escolha consciente de olhar o outro para além do espelho.

O fator determinante não é a ausência de problemas, mas sim a forma como o casal comunica, valida emoções, regula inseguranças, compreende os padrões de apego, mantém uma ligação emocional autêntica.
Para Facci, o conflito não é o fim do amor, mas a prova da sua existência. O ego tenta evitar o conflito porque ele desestabiliza a autoimagem. O amor real começa onde termina a projeção. É necessário um “luto” pela imagem perfeita do parceiro para que se possa amar a pessoa que está ali ao lado.

Poder partilhar com o outro os seus medos, inseguranças e “feridas” mais íntimas, “baixar a guarda” e mostrar as vulnerabilidades de cada um é um dos aspetos que mais fortalece o amor entre as duas pessoas. “A relação é muito boa quando a pessoa sente que pode confiar e falar abertamente das suas coisas mais difíceis com a certeza de que essas coisas não são armazenadas pelo outro como pedras para serem atiradas um dia mais tarde” (Gameiro, José)

Casal

Dicas para arruinar a sua relação amorosa

Inspirada por Guilherme Facci (psicanalista contemporâneo), de uma forma irónica, vos deixo as melhores dicas de como arruinar a sua relação e viver sem chegar perto de união feliz:

1. Leve para bem longe a sua angústia, nunca incomode o outro com os seus problemas, vá beber com os amigos, fale com outros sobre sua angústia, enfie-se na igreja se precisar;

2. Procure sempre adivinhar o que o outro tem a dizer. Antecipe o que o seu parceiro vai falar. Fale antes dele, interrompa, fale por cima, termine as suas frases, fale em seu nome no meio dos amigos;

3. Confunda intimidade com fusão total, “nós seremos um só”, o outro como medida de si mesmo. Anule todas as diferenças de si no outro, “A morte do desejo é a morte da diferença” (Facci), seja o mais parecido com o seu parceiro, opiniões iguais. Esforce-se para mudar o outro para que ele fique igual a si, à sua idealização, acabe com as diferenças;

4. Seja ciumento. Controle tudo. Veja o seu telemóvel todas as noites. Tenha a password do telemóvel do seu parceiro, investigue todo o seu passado amoroso. Invada o espaço, a vida do outro;

“Oh, cuidado com o ciúme, senhor; é o monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta.” (Otelo, Shakespeare)

5. Seja infiel. Seduza todos(as) à sua volta. A monogamia é uma farsa. Vai conseguir um fracasso ainda maior, especialmente se não tiver resolvido bem o seu próprio narcisismo;

6. Compare a sua relação com todas as outras ao seu redor, com outros casais. Evidencie que o outro casal faz tudo muito melhor;

7. Não dê espaço para que o outro tenha uma vida própria. Nós seremos tudo o que lhe basta!

8. Seja como casal exatamente aquilo que os outros esperam e pensam sobre nós. A imagem perante os outros é o mais importante. As aparências são importantes.

Querido(a) leitor(a), não existe um manual de instruções a ser seguido, nem uma receita infalível. Existem sim muitas evidências, ensinamentos e processos de construção e desenvolvimento que podem ajudá-lo.

A tomada de consciência de que só é possível existir uma verdadeira relação quando temos interesse pelo outro, quando cuidamos do outro, tornará possível uma relação que cresce, resiliente e muito boa!

Lembre-se sempre do poder de um abraço mais demorado!

Dra. Ana Afonso Guerreiro

Artigos Relacionados

O Pensamento Automático

Já parou para observar a rapidez com que a sua mente produz diálogos, julgamentos e cenários sobre o futuro? Muitas...

“Porque é que eu penso demasiado em tudo?”: quando a própria mente se torna um lugar cansativo

Existem pessoas que passam grande parte da vida presas dentro da própria mente. Pessoas que analisam conversas horas depois de...

A Guerra Silenciosa Dentro da Tua Mente: Porque é tão difícil mudar mesmo quando queremos?

Às vezes, as maiores batalhas da vida acontecem em silêncio. São 23h47. Sabes exatamente aquilo que precisas de mudar. Dormir...

autoestima

Quem Pensa os Teus Pensamentos?

Vivemos numa era onde a mente nunca se cala. Pensamos enquanto trabalhamos, enquanto conduzimos, enquanto tentamos dormir. A mente comenta...

A Qualidade dos Teus Pensamentos Define a Qualidade da Tua Vida

A tua vida é aquilo que tu pensas… ou tu pensas na tua vida? Esta pergunta parece simples, mas muda...

Ser Mãe

Mãe é símbolo de amor incondicional, de presença, de cuidado e de carinho. Mas ser mãe tem sido um conceito...

Discover more from Clínica de Psicologia e Coaching Learn2Be

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading