Caro(a) leitor(a),
Falar e pensar sobre suicídio ou sobre a morte é sempre delicado. A menos que “nos tenha” acontecido ou trabalhemos o assunto, fugimos sempre daí, quase como se fossemos apanhar algum vírus. Apesar de atualmente o tema ser amplamente discutido, pensado, esmiuçado, continua a ser difícil e será sempre, creio eu. Por um lado, somos obrigados a compreender, a aceitar, a percorrer as fases do luto quando nos saí uma “fava” dessas; mas por outro lado, é difícil compreender, aceitar, fazer um luto aceitável para se voltar a viver e não somente sobreviver. Às vezes, felizmente não todas, são duas faces da mesma moeda. É assim especialmente para quem convive ou conviveu com alguém que pensa no suicídio ou encontra nesse ato a “porta de saída”, o ponto final. Se é difícil para estes, imagine o que será para o próprio!
Com o pensamento do filósofo David Hume assistiu-se a uma reviravolta na forma como se olhava para o suicídio. Com o seu trabalho, o autor contribuiu para um afastamento da ideia vigente de que o suicídio era pecado e crime. Contudo, só mais tarde com Emile Durkheim, Sigmund Freud e Karl Menninger é que de facto o tema ganha outra compreensão, particularmente ao nível dos processos psicodinâmicos e mentais associados.
O suicídio é muito complexo e a própria definição de suicídio também o é.
«Suicídio – autodestruição por um acto deliberadamente realizado para conseguir este fim.» (Vaz Serra, 1971). De acordo com as recomendações da OMS (1984) o suicídio deve ser objeto de uma intervenção interdisciplinar, ultrapassando o âmbito da Psicologia e Psiquiatria. Sabemos que existe uma elevada percentagem de pessoas com ideias suicidas que antes de cometerem o ato, consultaram um médico clínica geral ou foram às urgências hospitalares. Neste sentido, toda a sociedade, desde a escola, ao vizinho, a junta de freguesia, o centro de saúde, todos nós, devemos estar conscientes do problema e alerta para identificar um pedido de ajuda, muitas vezes, sem voz.
O suicídio é considerado um problema de saúde pública. A Europa apresenta os índices mais altos do Mundo. Quase 800.000 pessoas morrem por suicídio no Mundo, todos os anos, o que corresponde aproximadamente a 1 morte por suicídio a cada 40 segundos. Em Portugal suicidam-se pelo menos 3 pessoas por dia. Estima-se que em Portugal e no Mundo, as mortes por suicídio possam ser ainda em maior número, uma vez que o seu registo nem sempre é feito devidamente. (OPP, Ordem dos Psicólogos Portugueses).
- Em situações de sofrimento intenso, a pessoa procura libertar-se daquilo que julga ser a origem da sua dor. Quando o objeto real não pode ser atacado, vira-se para o si mesmo;
- Tentativa de eliminar a insuportável dor interna;
- A autodestruição pode ser vista como forma de obter uma resposta desejada, obter atenção daquele que se ama;
- O suicídio pode surgir também por vingança face ao desamor sentido, raiva e agressividade;
- O suicídio pode ainda estar relacionado com um «desejo irresistível para a autodestruição» um instinto fortíssimo de morte.
Ter pensamentos sobre um plano de suicídio;
Tentativa de suicídio prévia;
Distúrbios Psicológicos (particularmente, Depressão, Consumo Problemático de Álcool ou Perturbação Bipolar);
Falta de tratamento adequado para Distúrbios Psicológicos/mentais;
Acesso a meios letais;
História de abuso físico ou sexual;
História familiar de problemas de Saúde Psicológica e de suicídio;
Existência de uma doença grave, incapacitante ou dor crónica;
Acontecimentos traumáticos recentes na vida pessoal (ex. acidente, divórcio, perder o emprego, morte de alguém);
Situações de vulnerabilidade (por exemplo, pobreza, desemprego, perdas financeiras, guerra, desastres naturais, discriminação e exclusão social, bullying e ciberbullying, conflitos em torno da identidade sexual;
Falta de apoio social e solidão;
Crenças de que o suicídio é uma solução nobre;
Exposição ao suicídio (na vida real ou através dos media e da internet, que podem conduzir a comportamentos de imitação, sobretudo se forem divulgados suicídios de figuras públicas – notícias sensacionalistas e apelativas).
Vários estudos indicam que o número de tentativas de suicídio é cerca de 25 vezes superior ao número de suicídios, o que de acordo com os especialistas aumenta a probabilidade dessas pessoas morrerem por suicídio.
Procure ajuda, seja para si ou para alguém que sabe que está nessa situação. Muitas pessoas com o tratamento adequado, psiquiátrico e/ou psicológico voltam a equilibrar-se e conseguem viver bem!
Viva em relação. Fale com alguém sobre o que sente. O vazio é letal.
A terapia psicológica pode ajudar a pessoa a olhar numa direção diferente. Peça ajuda. Marque consulta. Estou cá para ajudar!
Ana Afonso Guerreiro
Psicóloga Clínica
Em Portugal existem formas de ajuda. Para além de excelentes profissionais individuais ou grupos de saúde, pode sempre recomendar ou procurar apoios gratuitos como estes: Contactar o 112, o Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS 24 (808 24 24 24), a Linha SOS Voz Amiga (213 544 545; 912 802 669; 963 524 660), Telefone da Amizade (222 080 707), Conversa Amiga (808 237 327, 210 027 159), Voz de Apoio (225 506 070) e Vozes Amigas de Esperança de Portugal (222 030 707).