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Ode à saúde mental em 2020

Na nossa sociedade só tratamos de assuntos importantes quando uma tragédia acontece. Só se discute a importância de limpar as matas e florestas quando há fogos e se perdem vidas, só se fala de violência doméstica quando os números são assombrosos e só se fala de depressão e saúde mental quando os casos são mediáticos. Cabe a cada um de nós mudar esta realidade.

Enquanto continuarmos a desvalorizar a depressão e a doença mental, enquanto continuarmos a avaliar a felicidade e o bem-estar através das fotografias que temos nas redes sociais, não só não evoluiremos enquanto sociedade, como nunca seremos capazes de nos ajudar a nós ou aos outros. Nunca me fez tanto sentido a ideia de nos regermos por uma atitude de não julgamento e do erro que é acharmos que somos donos da verdade só pelo que vemos. Nunca devemos tomar por garantido que sabemos o que o outro sente, pensar por o que está a passar.

Depressão 2020

Em Portugal, a depressão e os transtornos ansiosos têm aumentado de forma significativa nos últimos anos, sendo acompanhado pelo aumento do consumo de medicação anti-depressiva e ansiolítica.

Em alguns casos, esta medicação é necessária, contudo, deve haver sempre a possibilidade de acompanhamento em psicologia, pois a medicação atua apenas no sintoma e não na causa.

O trabalho psicoterapêutico é central para o tratamento destas psicopatologias, que têm na sua génese crenças, pensamentos e emoções que se perpetuam e alimentam comportamentos e padrões disfuncionais. Centra a terapêutica na medicação, faz com que muitas vezes se perca a oportunidade de sentir e pensar sobre a nossa vida, sobre os nossos pensamentos, sobre os nossos objetivos e sonhos. Adormecer a dor e os sintomas, adormece também a nossa mente.

A doença mental é mal-entendida pela sociedade, e até por quem passa por ela.
Está carregada de preconceitos e ideias erradas.

Quantas vezes já ouvimos ou dissemos a alguém que está triste ou ansioso, “isso vai passar” ou “tem calma, respira fundo”? O nosso “querer ajudar” é muitas vezes um reafirmar da dor e do problema. Queremos normalizar a situação, mas o que fazemos é desvalorizá-la e criar no outro a sensação de que é errado ou inaceitável que se sinta triste ou ansioso.

É muito importante, principalmente no contexto deste ano de 2020, estarmos conscientes das nossas emoções, das nossas fragilidades, dos nossos receios e medos.
Nem por um momento devemos desvalorizá-los, culpar-nos da sua existência ou tentar contorná-los.

Sermos mais gentis e cuidadosos connosco é o primeiro passo para o nosso bem-estar, e socialmente temos o dever de desmistificar ideias como “só os malucos vão ao psicólogo”, “a medicação torna-nos seres sem emoções”, “precisar de medicação é uma fraqueza”.

A saúde mental é um bem tão precioso quanto desvalorizado.
Ode à saúde mental em 2020 - Artigo

A saúde mental é um bem tão precioso quanto desvalorizado. E a saúde mental não passa apenas pela inexistência de uma psicopatologia. É muito mais do que isso: é sentirmo-nos bem com as nossas escolhas, é sentirmo-nos amados nas nossas relações, é sentirmo-nos confiantes e motivados nas nossas profissões, é resolver e aceitar situações do passado, é mudar hábitos e comportamentos que sabemos serem negativos, é procurar a nossa felicidade dentro de nós.

Todos temos direito a cuidar da nossa saúde, a saber identificar sinais e sintomas e a ter a possibilidade de falar com um profissional que nos possa ajudar, de forma tão natural como quando marcamos uma consulta quando sentimos uma dor física.

Convido-o agora a avaliar como se sente.

Sente-se cansad@. Com falta de energia?
Sente pouco entusiamo nas tarefas do dia-a-dia?
Sente-se ansios@ e preocupad@?
Os seus padrões de sono e/ou alimentação têm sofrido alterações?
Sente que as emoções estão a flor da pele, e que isso tem consequências na relação com os outros?
Sente-se feliz?
Sente que quer dar um novo rumo à sua vida?

Sente-se cansado, sem energia?

Estas são apenas algumas questões que nos permitem olhar para dentro, perceber quais as nossas necessidades e de que forma as dinâmicas do dia-a-dia afetam a nossa saúde mental. Nunca foi tão importante estarmos conectados connosco mesmos. Com tantos estímulos, afazeres e rotinas, esquecemo-nos das nossas necessidades, intenções, vontades e sentimentos. Esta avaliação, mesmo que dolorosa, só pode ser feita fazer por nós. Pensar sobre o nosso bem-estar psicológico é tão ou mais importante do que pensar na nossa saúde física, algo que fazemos com muito mais frequência. Está nas mãos de cada um de nós alterar este paradigma.

Dra. Mariana Pereira Saraiva

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