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Quem você é não precisa de permissão

Ela acordava todos os dias com a sensação de que precisava de “fazer tudo certo”. Antes de responder a uma mensagem, pensava duas vezes. Antes de dizer o que sentia, avaliava o impacto. Antes de dizer “não”, sentia culpa. Após realizar uma ação procurava o feedback dos colegas. E, quase sem perceber, o seu bem-estar começou a depender sempre de uma pergunta silenciosa: “O que será que eles vão pensar de mim, se fizer isto desta forma?”

Talvez se reconheça um pouco nesta história.

A necessidade de aprovação não nasce do nada. Desde cedo, aprendemos que ser aceites é sinónimo de segurança emocional. Quando somos crianças, o olhar dos nossos cuidadores diz-nos se estamos a agir bem, se somos amados, se pertencemos àquele contexto. Por isso, ao longo da vida, todos nós, em algum momento, já procurámos sentir-nos aceites, reconhecidos ou valorizados pelos outros. Esta procura não surge por acaso: reflete a nossa natureza social e é uma experiência humana comum.

No entanto, as dificuldades podem surgir, tal como aconteceu com a protagonista desta história, quando o valor pessoal passa a depender exclusivamente do outro, como se a opinião do outro fosse o único critério para nos sentirmos suficientes.

Ela lembrava-se bem de quando começou a sentir isso com mais intensidade. Comentários críticos, rejeições, expectativas difíceis de alcançar. A insegurança, o medo de desapontar e de ser abandonada, e até a pressão social, reforçavam esta tendência, tornando quase automático a procura de validação. Assim, pouco a pouco, foi aprendendo que agradar era mais seguro do que ser autêntica. Que dizer “sim” evitava conflitos. Que esconder partes de si diminuía o risco da rejeição. E assim, sem perceber, foi afastando-se de si mesma.

A validação externa é isso mesmo: o processo através do qual procuramos confirmação, reconhecimento ou aceitação dos outros. Em pequenas doses, pode ser adaptativa e reforçar o sentimento de pertença. No entanto, quando se torna persistente e constante, pode transformar-se numa dependência emocional que condiciona as nossas escolhas, comportamentos e até a própria perceção de quem somos. 

Gradualmente, começamos a viver mais em função do olhar dos outros do que em coerência connosco mesmos. 

Muitas pessoas vivem assim:

  • a procurar validação constante;
  • com dificuldade em dizer “não”;
  • a preocupar-se excessivamente com a opinião dos outros;
  • com medo de desapontar ou de ser rejeitadas;
  • a evitar tomar decisões;
  • com dificuldade em expressar opiniões divergentes;
  • com insegurança, ansiedade e uma autoestima instável, que varia consoante o feedback recebido.

Mas, viver desta forma é cansativo, porque a validação externa é, por natureza, passageira e imprevisível. As expectativas dos outros podem mudar e, muitas vezes, ser impossíveis de cumprir, por serem irrealistas.

Estudos sugerem que esta preocupação com a aprovação dos outros não é apenas uma sensação isolada, tendo impactos no bem-estar. Por exemplo, Lemary e colaboradores (2006) mostraram que a autoestima, mesmo em pessoas que negam depender desta aprovação, se encontra fortemente relacionada com as avaliações, positivas ou negativas, dos outros.

Ademais, segundo Karasar e Baytemir (2018), quanto maior a dependência de aprovação dos outros, maior é também o evitamento social, o medo de se ser criticado e a sensação de inutilidade. Estes sujeitos tornam-se mais sensíveis à rejeição, tendendo a focar-se mais nas opiniões dos outros e a pensar frequentemente no que é que os outros vão pensar deles. Portanto, padrões como os que a protagonista vivência são comuns e reforçam a importância do desenvolvimento da validação interna.

Foi precisamente esta exaustão e consciência do impacto negativo desta dependência que a levou a começar a questionar-se: “E se o meu valor não precisasse de ser confirmado pelos outros?”. Essa pergunta marcou o início do seu processo de descoberta da validação interna, que consiste na capacidade de se aceitar e valorizar independentemente da opinião externa. Desenvolver esta forma de validação promove uma autoestima mais sólida, maior estabilidade emocional e uma maior tolerância à crítica. Contudo, não significa deixar de considerar o outro, mas sim deixar de nos abandonarmos a nós mesmos em prol da aceitação.

Diminuir esta dependência da aprovação dos outros é um processo, e não acontece de um dia para o outro. Mas pode começar com pequenos passos:

  • Autoconhecimento, para compreender as origens da necessidade de aprovação, identificar as razões e os contextos nos quais esta se ativa;
  • Análise de custos e benefícios, de modo a refletir sobre o impacto desta dependência no bem-estar emocional e no crescimento pessoal;
  • Trabalho cognitivo, questionando crenças que associam o valor pessoal à aceitação dos outros, por exemplo “só valho se agradar”;
  • Definição de valores e objetivos pessoais, para clarificar o que é verdadeiramente importante;
  • Prática da autocompaixão, substituindo a autocrítica por uma postura mais gentil e compreensiva;
  • Estabelecimento de limites saudáveis, mesmo quando isso gera desconforto;

Ao colocar estas práticas em ação, ela não deixou de se importar com os outros. Mas deixou de se esquecer de si. Aprendeu que pode ouvir opiniões externas sem se definir por elas. Aprendeu que pode viver sem medo e sem procurar constantemente o feedback dos outros. Aprendeu que pode ter opiniões diferentes dos outros e mesmo assim continuar a ser inteira e a pertencer aos grupos. Aprendeu a escolher-se!

No fundo, a verdadeira liberdade emocional começa quando deixamos de pedir permissão para sermos quem somos, e passamos a viver de forma mais autêntica, inteira e fiel a nós próprios.

E se desse hoje o primeiro passo? Pare um momento e reflita: até que ponto a procura constante de validação está a condicionar o seu dia a dia? O que mudaria se confiasse mais na sua perceção, nas suas escolhas e nos seus limites?

Comece por pequenos passos. Se sentir que precisa de apoio neste processo, o acompanhamento psicológico pode ser um espaço seguro para fortalecer a validação interna e viver de forma mais autêntica. Investir em si não é egoísmo, mas sim um compromisso com a sua autenticidade e saúde emocional. Lembre-se: quem você é não precisa de permissão. Comece hoje a escolher-se!

Nota: o caso clínico apresentado é fictício e foi criado apenas para fins ilustrativos. As situações descritas não correspondem a pessoas reais.

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