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É tempo de parar e recomeçar!

É tempo de parar e ... recomeçar!

Convido todos a pensar sobre o trabalho, emprego, escolhas, comportamentos e burnout. Precisamos de refletir sobre o conceito de burnout, afinal de que se trata? É aquela sensação de angústia? Enxaqueca? Insónia? Irritabilidade? Pessimismo? a dor do cansaço? exaustão completa?

A partilha de testemunhas de quem por lá passou, de quem passa, é sempre conteúdo de valor… Caso para afirmar: “liguem o sinal de alerta!”

Em 1974, o psicólogo Herbert Freudenberger (1926–1999) abordou, pela primeira vez, as alterações físicas e as mudanças comportamentais consequentes do esgotamento, desilusão e perda de interesse pela atividade laboral entre voluntários de uma clínica em Nova Iorque (Freudenberger, 1980, cit. in Cormack & Cotter, 2013). Por isto, é considerado um dos fundadores do conceito de burnout, tendo um papel decisivo no desenvolvimento da investigação e estudo desta síndrome (Cormack & Cotter, 2013).

Apesar das diversas alterações que a definição do conceito de burnout tem vindo a ter ao longo das décadas, é consensual que se trata de uma resposta caracterizada pela exaustão emocional e física em indivíduos que trabalham em contextos extremamente desgastantes e exigentes (Cormack & Cotter, 2013).

“Sentia uma enorme pressão na cabeça e um zumbido constante... À noite adormecia por duas ou três horas e acordava em pânico. Não queria que viesse a noite, não queria adormecer! Não queria que viesse o dia, não queria trabalhar!”

Desde 1 de Janeiro de 2022, que a síndrome de burnout vigora oficialmente na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde, sendo reconhecida como uma doença ocupacional e, portanto, um problema de saúde pública (Jornal Público, 2019). Esta integração estabelece a relação direta entre o ambiente de trabalho das empresas e a saúde física, mental e emocional dos seus colaboradores, para além do impacto indireto nos projetos empresariais devido ao prejuízo provocado pelo absentismo e pela redução de produtividade (Cormack & Cotter, 2013; Demerouti, 2015).

Freudenberger (1980) definiu três etapas da evolução degenerativa da síndrome de burnout (Freudenberger, 1980 cit. in Nagoski & Nagoski, 2019):

  • A exaustão emocional;
  • A despersonalização da identidade / desumanização;
  • Perda de realização pessoal.

“Um ano. Dois anos. Três anos. Já não está tão fácil de acreditar. Começa a ser doloroso ver o que nos rodeia. A Luz começa a falhar. Ora uma lâmpada se funde, ora outra. Mas, e a missão, afinal era aquilo que ainda me restava. E, acorda, levanta e segue o caminho. As feridas começam a ser cada vez mais presentes e profundas. Já não se sabe com quem se pode contar para continuar a caminhar. Parar no tempo é emergente. O cansaço apodera-se. E o que se vê não é bom. O que se sente é horrível.”

A realização das funções, serviços laborais torna-se dolorosa e angustiante. Vive-se no desgaste e na perda de capacidades emocionais, mentais e psicológicas.

A despersonalização é descrita como a necessidade de assumir um distanciamento nas relações interpessoais inerentes à atividade profissional (mas também com repercussões no ambiente familiar), resultando num agravamento das mesmas dada a adoção de um comportamento permanentemente hostil, distante, impessoal e apático (Cormack & Cotter, 2013).

A perda de realização pessoal caracteriza-se pela sensação de ineficácia e perda de competências, gerando descontentamento, desmotivação e insatisfação com o trabalho (Cormack & Cotter, 2013; Nagoski & Nagoski, 2019).

“Os dias começam a ser cada vez mais carregados mesmo que se trate de uma rotina habitual.”

O burnout interfere em todas as esferas da vida do indivíduo, o qual manifesta sintomas físicos, mentais ou emocionais, nomeadamente (Cormack & Cotter, 2013; Nagoski & Nagoski, 2019):

  • Exaustão física, mental e emocional;
  • Falta de energia;
  • Fadiga e dores musculares;
  • Distúrbios do sono / insónias;
  • Enxaquecas;
  • Alteração de apetite;
  • Alterações gastrointestinais;
  • Imunodeficiência;
  • Disfunção sexual;
  • Alterações menstruais na mulher;
  • Transtornos cardiovasculares;
  • Falta de concentração;
  • Lapsos de memória constantes;
  • Raciocínio lento;
  • Solidão;
  • Impaciência;
  • Indiferença/desinteresse/desmotivação;
  • Baixa autoestima;
  • Sentimento de inutilidade;
  • Decréscimo da criatividade;
  • Sentimento de fracasso;
  • Isolamento social;
  • Insensibilidade;
  • Irritabilidade;
  • Pessimismo constante;
  • Raiva;
  • Ansiedade;
  • Depressão;
  • Paranoia;
  • Abuso do consumo de substâncias (cafeína, tabaco, álcool, drogas ou medicação).

“... sou funcionária numa organização onde não há qualquer estratégia. Governa-se ao sabor do momento. Não há objetivos definidos...Há um sistema que não privilegia o bom desempenho e a excelência. (...) Os conflitos não são resolvidos, (...) Todos os dias há mudanças; em quatro meses já estive em dois locais físicos diferentes. (...) Nos últimos tempos, pensar em trabalho deixa-me irritada e impaciente, (...) Agora passou a representar, além da ansiedade, uma tristeza profunda, falta de prazer nas atividades, dificuldade em tomar decisões, perda de apetite e de peso. Tenho brancas de memória, desesperança, um sentimento de desvalorização pessoal, e por vezes tenho mesmo vontade de deixar tudo para trás.”

Segundo Christian Dunker, “as pessoas olham para a própria vida como se fosse uma empresa a ser medida pelos resultados.” Todos os dias uma corrida sem fim. Vemos mas não olhamos. Ouvimos mas não escutamos. Sentimos mas desvalorizamos. Estamos rodeados de pessoas mas não relacionamos. Pensamos mas não refletimos. Sobrevivemos e não vivemos. Vazio. Solidão, um sentimento universal que afeta a todos em algum momento da vida. A solidão pode estar associada à separação e pode-se manifestar em sentimentos de abandono, insegurança, inutilidade, falta de esperança, rejeição, infelicidade e dor. Num dado momento da vida emerge a urgência de parar mas, quantas vezes não fugimos dos nossos olhares?

O burnout é uma resposta complexa e incapacitante ao stress prolongado ou crónico inerente à atividade profissional. Deste modo, são várias as situações que podem desencadear esta síndrome, nomeadamente (Cormack & Cotter, 2013; Armstrong & Taylor, 2014; Nagoski & Nagoski, 2019):

  • Competitividade no local de trabalho;
  • Acumulação de tarefas / sobrecarga de trabalho;
  • Excesso de carga horária;
  • Alterações constantes no horário de trabalho;
  • Mau ambiente no local de trabalho;
  • Pressão excessiva;
  • Falha de comunicação;
  • Falta de autonomia;
  • Falta de transparência na tomada de decisões;
  • Responsabilidades em excesso;
  • Ausência de reconhecimento, incentivo e recompensa ajustados à responsabilidade pelo trabalho prestado;
  • Tratamento injusto;
  • Incerteza diária associada à ambiguidade de funções, metas e objetivos;
  • Falta de descanso e de equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.

O burnout conduz a uma reação em cadeia, pois sem um ambiente de trabalho saudável, as empresas não conseguirão crescer e prosperar economicamente dado o turnover, a elevada taxa de demissão, a redução de produtividade e os conflitos permanentes entre colaboradores e destes com os seus superiores hierárquicos.

Deste modo, as empresas devem adotar estratégias que impeçam a ocorrência de todos as causas descritas anteriormente. A promoção de um canal de comunicação transparente e permanente entre todos os elementos e departamentos/setores da empresa é fundamental, bem como a fomentação de uma cultura de responsabilidade e respeito corporativo e a disponibilidade empresarial para investir no sistema organizacional da empresa, na gestão de carreiras e no acompanhamento psicológico dos seus colaboradores (Cormack & Cotter, 2013; Armstrong & Taylor, 2014; Pirker-Binder, 2017; Gabriel & Aguinis, 2022).

“É hora de cuidar de ti. Ouves o especialista a dizer “ o seu diagnóstico é Burnout”… E agora? Porquê? Como é possível? Ai, e agora…? É tempo de encerrar capítulo e começar uma nova história. Perdoar. Definir prioridades. Escolher caminhos. Autoconhecimento. Autoconsciência. Gestão da inteligência emocional. Confronto com os fatores de stress.”

A título individual, são várias as medidas preventivas que podem ser tomadas, nomeadamente:
  • Praticar exercício físico e técnicas de relaxamento;
  • Priorizar uma alimentação saudável e equilibrada;
  • Priorizar o sono de qualidade;
  • Priorizar a socialização com familiares e amigos;
  • Cultivar a capacidade de autorreflexão;
  • Aproveitar os pequenos momentos de lazer para praticar a introspeção;
  • Encontrar ferramentas de maneio do stress apropriadas a cada indivíduo (por exemplo, caminhadas, voluntariado, cozinhar, ouvir música, ler, meditação, yoga, etc.);
  • Pensar, escrever e partilhar emoções, preocupações, pontos positivos e negativos do dia-a-dia e da vida em geral.
  • Redefinir o sucesso para incluir o bem-estar;
  • Alinhar objetivos e expectativas com a realidade.
  • Avaliar o horário típico semanal e organizá-lo de modo a facilitar o dia-a-dia.

“Quem lhe ensinou tudo isto, Doutor? – A resposta veio pronta: O sofrimento”

“Com a aceitação de uma ajuda especializada e um recomeço. É possível regressar com um novo olhar. Com uma nova filosofia. Com o mesmo valor. Com a mesma missão. Gratidão. O mundo do trabalho, na minha visão, será um mistério incerto, um ambiente desafiador, carregado de energias positivas e negativas. Quando o local onde se trabalha não tem a competência de promover o bem, que haja janelas de oportunidade para os profissionais. Pratique o bem me quero.”

No caso destas medidas se revelaram infrutíferas, o acompanhamento por parte de um profissional habilitado é imprescindível para restabelecer o equilíbrio mental e emocional do indivíduo. Estamos aqui para si!

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