No que diz respeito à mudança, a neurociência está de acordo quando diz que não importa a idade que tenha, seja 30, 40, ou 90 anos, se tiver um cérebro saudável e funcional pode mudar. Claro que isso não significa que o grau de facilidade seja o mesmo, mas é possível… com mais ou menos esforço, mas é perfeitamente possível. A esta adaptabilidade e maleabilidade do cérebro, de poder aprender coisas novas e mudar, chamamos de neuroplasticidade (Eagleman, 2020; Costandi, 2016; Cramer, et al., 2011).
Assim, sabemos que não é devido a fatores biológicos que somos impedidos de mudar, então resta-nos os fatores psicológicos e comportamentais. Uma das principais causas de não mudarmos é o medo. O medo é adaptativo, alerta-nos de uma possível ameaça e prepara-nos para a enfrentar, o problema começa quando este medo está desajustado e torna-se paralisante.
Talvez mudasse de emprego, talvez começasse aquele projeto que tem na sua mente, talvez se declarasse a alguém ou talvez se divorciasse, talvez mudasse de país, tirasse o curso que sempre sonhou, ou começasse novos hábitos.
Talvez fosse a atitude errada ou talvez fosse a melhor atitude da sua vida, mas o medo excessivo faz com que não consiga sequer avaliar corretamente as hipóteses. O medo nestes casos faz com que fique paralisado e esse medo com o tempo pode levar à insegurança, que por sua vez, leva à ansiedade, que é uma preocupação excessiva, um medo do futuro, de que algo mau posso acontecer. E assim sucessivamente, acabando por se conformar e acomodar.
É curioso, porque um dos papeis da ansiedade é fornecer-nos informações acerca da nossa vida, então se determinado pensamento ou situação causar ansiedade repetidamente, provavelmente a sua mente e o seu corpo estão a tentar mostrar-lhe que algo precisa ser resolvido, em alguma área da sua vida. Pense nisto da próxima vez que sentir ansiedade.
Outra das coisas que nos impede de mudar é esperar sempre um sinal, uma forte energia e um entusiasmo antes de agir. Lamento desapontá-lo, mas isso não vai acontecer, ou então não vai acontecer vezes suficientes para manter o comportamento. Muitas vezes, de forma errada interpretamos isso como motivação. Mas na verdade, motivação não é sentir uma energia mágica que nos faz agir, mas sim apenas o desejo de fazer algo (Harris, 2008).
Importa referir que as melhores coisas da vida não são estimulantes e inspiradoras todos os dias, em todos os momentos. Uma relação boa também tem momentos menos bons, um trabalho que nos apaixona também tem momentos desafiantes e stressantes. Mais importante que a motivação é a disciplina.
Também, confundir sonhos com objetivos, impede a mudança. Sonhar é inspirador, e pode servir de catalisador para a mudança, mas também pode ser perigoso porque podemos sonhar a vida toda sem realmente mudar, nem conquistar nada. Isto porque, um sonho são ideias gerais e isso pode levar a frustração e desilusão por não atingir os resultados esperados. Nesse sentido é importante, termos objetivos específicos, bem definidos, fazendo com que seja mais fácil planear, avaliar e executar com foco e determinação.
Igualmente, ter uma mentalidade fixa ou uma mentalidade de crescimento, influência a sua capacidade de mudança. Carol Dweck (2006), psicóloga e investigadora na universidade de Stanford, diz-nos que em geral, em relação à forma como encaramos os desafios existem dois tipos de mentalidade: a mentalidade fixa e a mentalidade de crescimento.
Segundo Dweck, pessoas com uma mentalidade fixa possuem crenças rígidas e inflexíveis, para estas pessoas as suas características pessoais são permanentes, impossíveis de serem mudadas ou melhoradas. Acreditam que são de determinada forma e vão ser sempre assim. Já aquelas pessoas com uma mentalidade de crescimento, acreditam que podem sempre melhorar as suas competências, que os erros são oportunidades de aprendizagem, e que através de esforço, dedicação e persistência irão conseguir superar e serem melhores. Ou seja, a sua mentalidade, a abordagem que tem perante os desafios e em relação a si próprio, irá limitar ou potenciar o seu crescimento.
Resumindo, a única coisa constante na nossa vida é a mudança, não precisa de ter medo de reinventar-se, e se ainda assim tiver medo…vá com medo. Não espere por uma energia mágica e inspiradora, se você não mudar, nada muda. Permita-se crescer e evoluir, seja a melhor versão de si, e agarre as oportunidades que a vida lhe dá para ser feliz. Transforme os seus sonhos em objetivos e inicie algo novo na sua vida, essa é a diferença de quem passa o tempo, daqueles que realmente o vivem. Irão sempre existir momentos desafiantes e de sofrimento, e aqui os seus padrões de pensamento, sentimentos e atitudes contam, crie uma mentalidade de crescimento, encontre novas maneiras de pensar ou de fazer as coisas. Aprenda, mude e reinvente-se quantas vezes forem precisas para ser feliz.
Se realmente estiver pronto para mudar sua vida, aqui estão algumas dicas que pode fazer para começar.
Como nos diz Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas – “se não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve”. Pense o que é realmente importante para si, o que o faz feliz, o que quer alcançar, como isso torna o mundo melhor e qual é o sofrimento e desafios que está disposto a enfrentar para isso. Viver uma vida com propósito significa viver uma vida que vale a pena ser vivida.
Saia da sua zona de conforto, desafie as suas crenças limitantes. Por exemplo, o medo de falar em público é um dos medos mais comuns em todo o mundo, mas é algo perfeitamente trabalhável e alcançável. É ao superar medos e enfrentar desafios que desenvolvemos competências e confiança para atingir os objetivos a que nos propomos.
- Cuide da sua saúde
Adote um estilo de vida saudável, faça exercício físico, alimente-se bem, durma bem e tenha boas relações. Viver uma vida saudável e equilibrada proporciona-lhe uma vida mais feliz e plena.
- Aceite-se
Você vai estar consigo a vida toda, seja uma boa companhia para si mesmo, aprenda a gostar de si.
Se estiver em alto mar a afogar-se porquê tentar salvar-se sozinho e nadar até à costa quando pode aceitar umas boias e tornar tudo mais fácil? Através da psicologia ou do coaching, é possível traçar um plano à sua medida, dar-lhe as ferramentas necessárias e acompanhá-lo nessa jornada.
Se ainda não está convencido saiba isto: Vários estudos (Roese, 2005; DeGenova, 1992; Newall, Chipperfield, Daniels, Hladkyj, Perry, 2009) demonstraram que o arrependimento é dos piores sentimentos em idade avançada. Arrependimento por não ter feito algo, por não ter aproveitado melhor a companhia de alguém que partiu, arrependimento de não ter mudado. Lembre-se, é mais fácil superar o medo do que o arrependimento.
Não há melhor momento do que o agora! Comece já o seu processo de mudança para ser o melhor de si.
Referências Bibliográficas
- Costandi, M. (2016). Neuroplasticity. MIT Press.
- Cramer, S. C., Sur, M., Dobkin, B. H., O’brien, C., Sanger, T. D., Trojanowski, J. Q., … &
- Vinogradov, S. (2011). Harnessing neuroplasticity for clinical applications. Brain, 134(6), 1591-1609.
- DeGenova, M. K. (1992). If you had your life to live over again: What would you do differently? International Journal of Aging and Human Development, 34, 135-143.
- Dweck, C. S. (2006). Mindset: The new psychology of success. New York: Random House.
- Eagleman, D. (2020). Livewired: The inside story of the ever-changing brain. Canongate Books.
- Harris, R. (2008). The Happiness Trap: How to stop struggling and start living. Boston, MA: Trumpeter.
- Münte, T. F., Altenmüller, E., & Jäncke, L. (2002). The musician’s brain as a model of neuroplasticity. Nature Reviews Neuroscience, 3(6), 473-478.
- Newall, N. E., Chipperfield, J. G., Daniels, L. M., Hladkyj, S., & Perry, R. P. (2009). Regret in Later Life: Exploring Relationships between Regret Frequency, Secondary Interpretive Control Beliefs, and Health in Older Individuals. The International Journal of Aging and Human Development, 68(4), 261–288.
- Pittenger, C., & Duman, R. S. (2008). Stress, depression, and neuroplasticity: a convergence of mechanisms. Neuropsychopharmacology, 33(1), 88-109.
- Roese, N. (2005). If only. New York: Broadway Books.