O consumo de pornografia tem crescido. Em 2019, um dos maiores sites pornográficos do mundo, o Pornhub, registou 42 mil milhões de visitas. É expectável que este crescimento tenda a manter-se. Em Portugal, o consumo de pornografia é uma realidade. Estatísticas (do site Pornhub) mostram que, em 2018, Portugal ocupou a 39ª posição no ranking mundial, sendo 29% dos visitantes mulheres.1
Falemos de sexo: no sentido puramente biológico, o sexo é uma força poderosa que pretende assegurar a continuidade da espécie. Tal como outras recompensas, o desejo sexual é orientado pela libertação de dopamina no cérebro, um neurotransmissor excitatório associado à sensação de bem-estar. A dopamina “toca” diversas áreas do cérebro, e quando este processo se encontra em equilíbrio, o desejo – que conduz à obtenção de prazer – motiva-nos para a realização de comportamentos saudáveis que contribuem para a nossa sobrevivência, enquanto espécie, e para a nossa realização pessoal, enquanto indivíduos.
Até aqui tudo bem. O problema começa quando desenvolvemos comportamentos que se tornam prejudiciais ao nosso organismo e, por consequência, acabam por afetar o nosso bem-estar geral.
Para melhor compreender do que estamos a falar, uma breve explicação sobre os processos fisiológicos que ocorrem no cérebro: o cérebro humano está programado para incentivar comportamentos que contribuem para a nossa sobrevivência. Um dos sistemas internos de que dispomos, o sistema dopaminérgico, recompensa os comportamentos de ingestão de alimentos, e os relacionados com a sexualidade, com a libertação (no cérebro) de substâncias que transmitem sensações poderosas de prazer e bem-estar.
Cocaína, álcool, opioides e outras drogas danificam esse sistema de recompensa de prazer e bem-estar, “levando” o cérebro a pensar que o estado de êxtase provocado por aquelas drogas é igualmente necessário, à semelhança dos alimentos, para a nossa sobrevivência – o estado de êxtase, e o prazer que liberta, torna-se o “novo normal”. A investigação realizada sobre estes temas mostra que as recompensas naturais, derivadas da alimentação e da sexualidade, afetam os sistemas de recompensa do cérebro da mesma forma que as drogas e o álcool, podendo, quando em excesso, transformar aqueles comportamentos (alimentação e sexo) em adições.
Num estado de adição, a busca natural de prazer deixa de ser fonte de motivação (de comportamentos que buscam a satisfação desse prazer), mas passam a dominar e controlar grande parte do nosso tempo de vigília. No que diz respeito ao consumo de pornografia – o nosso tema –, a necessidade de masturbação, por exemplo, pode assumir proporções tais que a sua não consumação provocará um desconforto crescente que, com a repetição da exposição, acabará por orientar a pessoa para a realização de comportamentos que satisfazem a adição (mas que são prejudiciais à saúde), provocando um alívio daquilo que era uma tensão quase insuportável, alívio este que será, contudo, meramente temporário, dada a contínua necessidade fisiológica de recompensa.
Destaco, em síntese, alguns dos malefícios que inúmeros estudos revelam sobre a exposição intensa e prolongada à pornografia:
- Danos na produção de dopamina, um neurotransmissor relacionado com os sistemas de recompensa do cérebro;
- Degradação do córtex pré-frontal, com prejuízo de funções executivas tais como motivação, tomada de decisão e controlo de impulsos;
- Manifestação de sintomas típicos de privação – ansiedade, irritabilidade, insónia, fadiga, humor deprimido;
- Disfunção erétil e/ou dificuldades em atingir o orgasmo na vida sexual efetiva;
- Criação de expectativas irrealistas sobre a prática sexual;
- Diminuição da satisfação, ou perda de atração, relativamente às caraterísticas sexuais dos parceiros;
- Comportamentos violentos ou agressivos, dirigidos ao parceiro, aquando da prática sexual.
Posto isto, o consumo de pornografia só tem aspectos negativos? Será possível sair de um ciclo de adição à pornografia?
Comecemos por esta última questão: Antes de mais, a pessoa que se encontra na situação (de adição) tem de ser compreensiva consigo própria e entender os mecanismos fisiológicos que estão na base deste comportamento. Em paralelo, e à semelhança de outras adições, o esforço de saída passa pela adoção de estratégias, cuja implementação vai implicar esforço e trazer, seguramente, um desconforto inicial, pelo que é crucial não desistir.
Destaco algumas dessas estratégias:
- A prática (até que se torne um hábito) de comportamentos de autocontrolo que distraiam a pessoa no momento em que a necessidade é maior, tais como sair, socializar, meditar, fazer tarefas criativas;
- Realização de psicoterapia ou acompanhamento psicológico;
- Participação em grupo de apoio com pessoas que passam pelas mesmas dificuldades;
Sobre a outra questão: ao falar-se de exposição à pornografia, estaremos sempre a falar de adição? A resposta é, naturalmente, não: quando a exposição é feita de forma moderada (lembrar que a adição pode revestir-se de períodos de não-consumo, ou consumo moderado, seguidos de períodos de consumo intenso e descontrolado), pode realmente trazer benefícios:
- Traz conhecimento sobre as práticas sexuais que são importantes e significativas para o próprio;
- Ajuda a combater a repressão sexual que possa existir, trazendo maior compreensão e aceitação;
- Contribui para a tolerância e aceitação das práticas sexuais dos outros;
- Ajuda a manter o interesse sexual nas relações amorosas de longa duração;
- Permite que se esteja mais atento aos desejos do parceiro, e também a melhor comunicar sobre os desejos de cada um.
Se sente necessidade de explorar algumas das questões aqui abordadas com apoio profissional, os elementos da equipa Learn2Be estamos disponíveis.
Gonçalo Duque Plaza
Psicólogo Clínico | Terapeuta EMDR
1 Castro, R., & Lins, S., 2020. Género, Significados e Consumo de Pornografia em Portugal: Um Estudo Misto. Investigação Qualitativa em Saúde: Avanços e Desafios, 3, 162-174.